Colcha de Retalhos

Eu me sinto assim: uma colcha de retalhos.
Feita de pedaços de mim que fui dando ao longo do caminho.
Tecida às pressas por mãos que nunca me souberam inteira,
remendada por sentimentos que nunca voltaram completos.

Cada ponto, uma entrega.
Cada linha, uma esperança.
Fui costurando afetos, unindo lembranças, prendendo saudades,
achando que, juntos, talvez formassem algo bonito. Algo inteiro.
Mas o espelho só devolve a imagem de uma mulher cheia de recortes:
um pouco daqui, outro pouco dali… sempre dando mais do que podia.

Sou feita dos retalhos de todas as vezes que não me escolheram.
Do beijo que ficou no ar.
Do abraço que eu desejei, mas contive.
Da ligação que não veio, do “bom dia” frio, do “você é incrível” dito como quem não percebe o eco que isso deixa em alguém que só queria ser vista por inteiro.

Não é que eu não tenha amor.
Pelo contrário, eu transbordo.
Mas talvez o mundo só saiba pegar um gole e sair correndo,
com medo da intensidade que eu carrego no peito.

Às vezes penso se alguém um dia vai me olhar como eu olho o mundo.
Sem pressa, sem medo, sem usar luvas.
Alguém que entenda que, por trás dos pedaços, existe uma mulher inteira querendo apenas ser tocada com verdade.

Mas por enquanto, sigo aqui.
Costurando dias bons sobre dias tristes,
tentando transformar meus retalhos em coberta.
Mesmo que seja só pra me proteger do frio de ser tanta…
e, ainda assim, não ser suficiente.

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