Tem dias que eu acordo com a sensação de que falta alguma coisa.
Não um objeto, nem um detalhe…
Falta um pedaço meu.
Como se eu tivesse vindo ao mundo assim, incompleta, com espaços em branco que ninguém consegue preencher.
E talvez seja esse o meu karma: viver de metades.
Meias conversas. Meios toques. Meios amores.
Como se a vida me entregasse tudo pela metade e mesmo assim esperasse que eu fosse inteira pra retribuir.
Quando tem parceria, falta presença.
Quando tem presença, falta toque.
Quando tem toque, falta sentimento.
E quando, por um milagre raro, vem tudo isso junto…
a pessoa vai embora.
E eu fico.
Sempre fico.
Com os braços abertos demais, com o coração exposto demais, esperando demais.
Sempre me moldando aos espaços dos outros, tentando ser o que eles precisam, esquecendo o que eu sou.
Amando tanto que esqueço de pedir amor de volta.
No fim, sou sempre eu por mim.
Eu me consolando.
Eu me reerguendo.
Eu fingindo que está tudo bem enquanto abraço memórias, cheiros, como se assim eu preenchesse os buracos.
Talvez o problema seja que eu sinto demais num mundo que sente de menos.
Ou talvez seja só o vazio que vive em mim pedindo socorro, pedindo que alguém, qualquer alguém, me veja por inteiro.
Não só pelas metades que ofereço.
Não só pela utilidade, pela parceria, pelo “você é incrível, mas…”.
Cansei dos “mas”.
Cansei de ser metade.
Cansei de sempre ser quase.
De sempre me sentir uma presença dispensável, mesmo quando sou a única que fica.
E se tudo que me resta for amar sozinha, então que seja um amor que volte pra mim.
Que cure a menina exausta que mora aqui dentro.
Que acalme o peito que chora em silêncio.
Que aceite: não sou metade de ninguém.
Mesmo em pedaços, ainda assim sou inteira.
Mesmo em silêncio, ainda assim sou profunda.
E um dia, talvez, alguém enxergue isso.
Mas até lá…
eu me abraço com força.
Porque ninguém mais sabe o que é carregar tudo isso por dentro e ainda assim continuar sorrindo.
