O último turno

Amanheceu e, mais uma vez, ele não veio.

Nem uma mensagem, nem um sinal de que ainda existe um fio de afeto puxando do outro lado.

E, no fundo, eu sabia.

Depois da última conversa, depois do meu adeus, depois de pedir com os olhos uma chance e receber de volta o silêncio duro de quem já partiu por dentro, eu sabia.

Amanhã vou vê-lo de novo. Lá, sentado na sala com aquela roupa que eu costurei com amor de quem sonhou demais.

Vai ser como encarar um fantasma, como ver meu coração vestido nele e saber que já não me pertence.

Ele vai passar por mim, talvez me dê um bom dia sem alma, talvez me evite o olhar e eu vou fingir que estou inteira.

Vou segurar as lágrimas entre um momento e outro, apertar os dentes pra não tremer a voz, sorrir pras pessoas enquanto por dentro o mundo implode.

Porque ele vai embora. E com ele, vai a última chance de uma história que só eu quis escrever.

No fim, o que dói não é só a ausência dele. É o espaço que ele ocupou em mim. É o peso de saber que mesmo tendo dado tudo, mesmo tendo sido a torre mais leal nesse jogo, ele nunca quis segurar minha mão de verdade. Que eu me culpo por soltar a dele, mesmo sabendo que ela esteve sozinha o tempo todo.

Vai ser mais um dia em que voltarei pra casa com os olhos úmidos e o peito em ruínas, mas talvez, só talvez, seja também o primeiro passo pra me reconstruir.

E isso hoje é necessário.

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