Durante muito tempo, eu me vesti de gelo.
Criei uma armadura feita de frases afiadas, silêncios calculados e sorrisos contidos.
Elsa, a Rainha da Neve, foi mais que uma personagem pra mim, foi abrigo, escudo, identidade.
“Forte e fria”, eu dizia, quase como uma oração. Acreditava que bastava não sentir, não mostrar, não deixar ninguém saber.
Tatuei em mim essas palavras como um lembrete eterno: não se entrega, não se permite, não se quebra.
E assim eu fui vivendo… Ou pelo menos fingindo que vivia.
Atrás do gelo, havia um vulcão em erupção silenciosa.
Enquanto o mundo me via inteira, por dentro eu desmoronava aos poucos, mas sem deixar cair.
Até que um dia esqueci a armadura em casa.
Esqueci que deveria ser de gelo.
Esqueci de repetir minhas frases protetoras.
E foi aí que ele apareceu.
Com olhos que diziam mais do que deviam e um jeito de menino perdido, ele atravessou meu gelo como se fosse brisa.
Fez meu peito tremer, minha respiração falhar, meu lema virar pó.
E eu, que por anos fui muralha, me tornei vulnerável.
A armadura rachou.
O gelo derreteu.
E no reflexo da água eu me vi: uma mulher cheia de amor, de desejos, de medos, que só queria ser vista e amada de verdade.
Mas nem sempre quem chega pra aquecer, fica.
Às vezes, só passa pra provar que ainda podemos sentir.
Agora, aqui estou eu, recolhendo os estilhaços do que fui e tentando lembrar:
Quem era eu antes de tudo isso?
Quem fui por trás do escudo, antes da dor, antes dele?
Talvez seja hora de voltar a ser Elsa, não a que se esconde, mas a que canta no alto da montanha que ninguém mais vai escalar por ela.
Porque o passado… a neve já cobriu.
E mesmo que ainda doa, eu sigo.
Com as marcas, com os aprendizados, com a coragem de sentir.
E, dessa vez, de não me congelar por ninguém.
