E se for verdade?

Foi no meio do caos.

No meio do cansaço, da voz áspera e dos olhos embriagados. No meio das palavras afiadas, das mágoas acumuladas, da dor que não cabia mais no corpo. Foi nesse cenário disforme, descompassado, que ele jogou no ar o que deveria ser sagrado: “Eu te amo.”

Assim. Cru e seco. Sem mãos estendidas. Sem cuidado. Sem colo.

E eu… eu fiquei ali, estática, tentando recolher os estilhaços de algo que nem chegou a acontecer por completo, mas que, de alguma forma, me marcou como se tivesse sido tudo. Como se fosse o grande amor da minha vida. Como se a gente tivesse vivido uma eternidade inteira em apenas alguns instantes.

“Eu te amo.”

Se fosse outro dia, em outro tempo, com outra entrega, talvez fosse a frase que eu sonhei ouvir. Mas naquele instante, do jeito que veio, como um sopro impaciente ou um suspiro entorpecido, aquilo só fez sangrar mais. Porque e se for verdade? E se ele sentiu mesmo, só que nunca soube lidar? E se aquele amor estava ali, encolhido num canto do peito dele, mas encoberto por medo, orgulho, ego, ou dor?

E se?

Mas amor, o verdadeiro, não chega quebrado. Não vem cuspido entre ofensas. Não aparece ferido, querendo se curar ferindo o outro. Amor não exige que você rasteje, não te faz implorar, não se esconde atrás do álcool ou da covardia.

Amor acolhe. Amor permanece.

E ele… ele não ficou.

O que ficou foi o luto. Um luto estranho, silencioso, por algo que nunca teve nome, mas teve cheiro, teve pele, teve toque, teve promessa implícita nos olhos e esperanças escondidas em cada momento partilhado.

Ficou o luto do quase. A dor do talvez. A saudade do que nunca chegou a ser.

E desde então eu venho enterrando, com cuidado, esse amor que nunca se completou. Um olhar de cada vez. Uma lembrança por dia. Um suspiro cansado, uma lágrima calada, um coração em reabilitação.

Porque mesmo que ele tenha dito “eu te amo”, todo o restante sempre desmentiu tudo. O desprezo, a frieza, a ausência, foram esses que gritaram mais alto do que qualquer palavra dita entre soluços e álcool.

E se um dia foi amor… então ele não soube amar.

Hoje, tento parar de pintar a dor com tintas bonitas. Tento lembrar que quem ama de verdade não te quebra pra depois pedir que você limpe os cacos. Que amor de verdade não precisa ser sobrevivido, precisa ser vivido.

Agora é comigo. Com o que restou de mim.

Com o luto de um amor que só existiu dentro de mim, mas que doeu como se fosse de nós dois. E com a esperança de que um dia, num tempo limpo, com outra consciência, você olhe para trás e que eu ainda esteja aqui.

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