Ele – O Rei e o Menino dos Muros

No jogo, ele é o Rei.
A peça mais importante, a mais protegida.
Move-se devagar, um passo por vez,
não porque seja fraco,
mas porque sabe que cada movimento
pode decidir o fim da partida.

Ele calcula.
Ele observa.
E às vezes parece não se mover por horas,
como se o mundo pudesse esperar
até que ele tenha certeza
do próximo ato.

Mas, fora do tabuleiro,
ele é o menino dos muros.
Constrói muralhas altas,
de pedra, silêncio e ironia.
Diz que é para se proteger,
mas, no fundo, é porque
não sabe se alguém vai querer ficar
quando vir tudo o que há por dentro.

E, de vez em quando,
num descuido doce,
ele abre uma fresta no portão.
Me deixa entrar.
Me mostra jardins que ninguém mais viu,
feridas que ele nunca mostrou,
histórias que ele conta baixinho,
como quem teme que o vento as leve.

Nessas horas, não há Rei,
não há guerra,
não há jogo.
Só o menino, inteiro, cru, vulnerável.
E eu, do lado de dentro,
querendo ficar.

Mas logo o portão fecha.
O Rei volta ao trono,
o tabuleiro segue.
E eu fico com a lembrança
do menino que mora por trás das muralhas,
o menino que, talvez,
nunca tenha aprendido
que deixar alguém ficar
também é uma forma de vencer.

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