Tenho saudade de Ti,
mas não da tua voz carregada de raiva,
não dos gritos que me atravessam a alma.
Tenho saudade dos detalhes,
de arrumar teu cabelo
como quem ajeita o mundo
para que ele pese menos na tua cabeça
e aliviar assim seus pensamentos.
De alinhar teu óculos torto
e sorrir em silêncio,
porque só eu percebia
esses pequenos desvios do teu rosto.
Tenho saudade do jeito certo,
da calma que às vezes nasce entre nós
quando baixamos as armas
e nos reconhecemos no afeto.
Eu não queria muito,
não queria tudo,
queria só isso:
um espaço onde eu pudesse cuidar de Ti
sem medo da próxima explosão,
um espaço onde o meu carinho
não fosse visto como fardo.
E se digo que sinto saudade,
é porque ainda guardo em mim
aquela parte de Ti frágil e risonho,
um menino imperfeito,
que talvez nunca tenha sido meu,
mas que, nos meus gestos mais simples,
eu sempre quis acolher.
