Algumas portas são como viagens silenciosas no tempo.
A gente gira a maçaneta e, de repente, tudo ao redor parece suspenso, o ar, o som, as lembranças.
Hoje eu abri uma dessas portas.
Vim ao meu consultório depois de tantos meses.
O lugar parecia o mesmo, o cheiro levemente adocicado do ambiente, o som do eco dos meus passos…
Mas havia algo diferente ou talvez fosse eu quem já não era mais a mesma.
Assim que entrei, senti uma mistura de saudade e reconhecimento.
A maca estava ali, pronta como se esperasse o próximo atendimento.
O jaleco, ainda pendurado na cadeira, parecia guardar meu último gesto, minha última conversa, meu último abraço de despedida.
As fichas de anamnese repousavam silenciosas sobre a mesa, como se os pacientes ainda estivessem por perto, aguardando seu retorno.
Os relatórios de desenvolvimento terapêutico, alinhados com cuidado, guardam histórias, conquistas, lágrimas, e pequenas vitórias que só o tempo e a escuta conseguem registrar.
Tudo parece igual e, ao mesmo tempo, tão distante.
Cada detalhe do lugar me devolve a lembrança do sonho que um dia plantei aqui:
as tardes em que escolhi os desenhos das paredes com o coração batendo de entusiasmo,
os quadros pendurados com tanto cuidado,
os livros organizados por tema, por cor, por carinho.
Tudo isso fala de mim, de uma versão minha que acreditava que esse espaço seria eterno.
Não sei se volto a atender.
A vida tem dessas pausas que não pedem licença, às vezes ela muda o ritmo, muda o rumo, e só nos resta respirar fundo e seguir o novo compasso.
Mas hoje, sentada aqui, depois de tanto tempo, sinto algo como um reencontro comigo mesma.
Há lugares que não são apenas lugares, são extensões da alma.
E, de algum modo, mesmo em silêncio, eles continuam vivos, esperando por nós.
Talvez eu volte.
Ou talvez apenas venha visitar de vez em quando, só para lembrar quem eu fui,
e o quanto de mim ainda existe entre essas quatro paredes que guardam não só memórias,
mas o eco de tudo que já fui capaz de curar, dentro e fora de mim.
