Onde o amor me expulsa

Já fui tantas vezes expulsa daquela casa que perdi a conta.
E, ainda assim, continuo voltando, talvez por teimosia, talvez por amor,
talvez porque um pedaço de mim ficou preso em algum canto do teu sofá,
onde o meu coração se derramou da última vez.

Eu volto sempre achando que dessa vez vai ser diferente.
Que teu olhar vai ser abrigo e não julgamento,
que teu silêncio vai ser calma e não castigo.
Mas o que encontro é sempre o mesmo roteiro: o riso que vem antes do gelo,
a aproximação que termina em abismo, o toque que quase acontece, o beijo que morre no ar.

No elevador, eu quis parar o tempo.
Tão perto da tua pele, tão perto do que eu sempre quis.
Era só um passo, um movimento, uma chance.
Mas o desejo virou crime, e o afeto virou culpa.
E eu fiquei ali, confusa entre o que senti e o que te fez se fechar.
Não era invasão, era saudade.
Era o amor tentando te alcançar antes que você se perdesse de mim de novo.

Mas você se perdeu.
E eu também.

Você me mandou embora com palavras que rasgaram o peito,
me reduziu ao erro, ao exagero, à mulher que “passou dos limites”.
Mas o que eu passei foi da dor.
Passei do limite de quem ama demais e não sabe como parar.

E agora, enquanto caminho de volta, eu penso:
por que eu volto sempre pra um lugar que me expulsa?
Por que eu insisto em chamar de casa o lugar onde o amor me fere?

Talvez porque, no fundo, eu ainda espere que um dia, quando eu bater,
você não feche a porta.
Que um dia o teu olhar me reconheça e não me condene.
Que um dia eu volte, e seja bem-vinda.

Mas até lá, sigo indo e voltando,
tentando entender o que resta de mim
toda vez que o amor me expulsa
e, mesmo assim, eu ainda fico do lado de fora
esperando você abrir.

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