Fui.
Nem pensei, nem pesei, nem medi. Só fui.
Onze horas de silêncio dele e uma eternidade dentro de mim.
A cabeça gritando, o coração apertado, o medo sussurrando os piores cenários
e eu só conseguia imaginar o pior.
Porque quando ele some, o mundo parece sumir junto.
Cheguei lá.
A mesma casa, o mesmo cheiro, o mesmo sofá.
Ele estava ali, deitado, tranquilo.
Tinha apenas dormido.
E naquele instante, tudo o que eu queria dizer travou.
Raiva, alívio, cansaço, tudo se misturou num nó no meio da garganta.
Eu, que passei o dia inteiro tentando salvar ele de um abismo imaginário,
encontrei um homem dormindo em paz.
Quis gritar, quis chorar, quis rir.
Mas só fiquei ali, olhando pra ele, tentando entender por que o meu coração insiste tanto.
Por que eu sempre volto, mesmo depois de tudo.
Por que ainda encontro beleza num gesto simples, num silêncio, num “tá tudo bem” dito com desdém.
E no fundo, eu sei.
Sei que não é só sobre ele.
É sobre mim, sobre o quanto eu não sei partir,
sobre o quanto eu ainda acredito que posso ser o abrigo dele.
Mesmo que isso me custe a minha própria paz.
E ali, no mesmo sofá de sempre, percebi que o problema não é ele não mudar.
O problema é eu continuar voltando, achando que dessa vez vai ser diferente.
