O que não se diz

Ele disse que não sente nada.
Disse com a calma de quem arranca um coração e observa o sangue cair sem se sujar.
Falou que tudo era invenção da minha cabeça, como se o amor fosse delírio e não ferida aberta.
Como se eu tivesse escolhido sangrar.

Mas eu senti.
E sentir foi o erro mais humano que cometi.
Enquanto ele media palavras, eu me entregava inteira.
Enquanto ele levantava muros, eu me despia de todas as defesas pra que ele visse quem eu era e ainda assim ele virou o rosto.

Ele sempre quis o controle.
Quis que eu fosse menos, pra ele ser mais.
Quis me moldar, me silenciar, me ensinar a não sentir.
Mas eu nunca aprendi.
E talvez seja por isso que ele me chamou de louca, dramática, adolescente.
Porque amar com verdade assusta quem só conhece o cálculo.

Agora ele deve estar lá, se distraindo com alguém “que vale a pena”,
tentando preencher o vazio com novidade, como quem tapa um buraco com fumaça.
Mas o que eu dei, valor, não preço, não se repete.
Nenhuma substituta compra o que nasceu da alma.

E quando o eco da solidão bater forte entre os muros dele,
talvez lembre de mim.
Da mulher que ficou quando todos se cansaram.
Da que o segurou mesmo quando ele empurrou.
Mas vai ser tarde.

Porque o amor, quando morre de tanto apanhar,
vira cinza.
E a cinza, não volta a ser fogo.

Categories


Search