Onde a luz não chega

Hoje o dia nasceu e eu não.
Fiquei presa na cama como quem se afoga em pensamentos densos,
escutando o silêncio pesar no peito.
Há pessoas que passam pela nossa vida como clarões,
raras, intensas, impossíveis de ignorar.
E mesmo assim, a gente se perde delas
como quem solta a corda no meio da tempestade
e só percebe quando as mãos já estão vazias.

Eu não suporto quando a gente briga,
mas suporto menos ainda a ferida que isso te causa.
Sei do meu caos, sei do meu desequilíbrio,
sei que minhas emoções às vezes vêm como maré alta
e invadem tudo.
E mesmo assim, quando penso em ti,
algo em mim se faz pequeno,
não por submissão, mas por cuidado.
Porque ainda me dói te imaginar doendo.

Recordo quando sonhávamos grande,
quando tu falavas que poderíamos ser melhores,
e eu te chamava de Faraó, de soberano,
enquanto ríamos de reinos inventados
como duas crianças conspirando destino.
Havia leveza.
Havia um tipo de brilho que a vida não dá duas vezes.

Se eu pudesse voltar, eu voltaria devagar,
pisando leve para não espantar nada.
Seria mais compreensiva,
perguntaria onde era o meu lugar na tua vida
antes de erguer castelos de areia
com paredes feitas de desejo e fantasia.
Mas eu estava perdida
e, na minha confusão, vi o que queria ver,
não o que realmente havia.

Vi amor onde talvez houvesse só presença,
vi promessa onde havia só instante,
vi porto onde havia só passagem.
E quando despertei, já estava algemada
às expectativas que eu mesma inventei
para sobreviver à falta.

Eu te olhei com olhos de quem ama,
quando deveria ter te visto
com olhos de quem cuida.
E esse foi meu maior erro:
tentar salvar com sentimento
aquilo que só pedia silêncio e atenção.

Se algum dia houver um recomeço
mesmo que pequeno, mesmo que tímido
prometo ser outra versão de mim.
Não uma que sonha alto demais,
mas uma que consegue ficar,
sem exigir que o mundo inteiro
caiba dentro da tua mão.

Porque desde o primeiro instante,
eu soube que queria você na minha vida.
Só me enganei ao imaginar
que o teu lugar seria outro
além daquele que tu realmente tinhas pra me oferecer.

E ainda assim, no fundo escuro onde a luz não chega,
onde a saudade dorme e o amor resiste,
eu te guardo.
Com tudo que ainda pulsa, menino.

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