Houve uma madrugada em que o mundo pareceu desabar por dentro,
não com estrondo
mas com aquele silêncio gelado
que só existe depois que algo quebra de vez.
A tela do celular pulsava como um coração enfermo:
E entre as chamadas perdidas,
uma insistência que já não era procura,
mas possessão.
Um chamado vindo da escuridão dele,
pedindo que eu descesse mais uma vez ao abismo
para segurá-lo pela mão
ou para cair junto.
E então vieram as palavras.
Não palavras:
ferros em brasa,
sangue batido nas paredes,
a violência crua de quem não sabe amar,
mas sabe destruir.
“inútil, você não é nada…”
“Você é tão pequena…”
“Seja minimamente mulher…”
E aquele sussurro final,
tão cortante que parecia dito pelo próprio vazio:
“Se mate aí nesse lugar.”
Essa frase abriu algo em mim.
Não uma ferida
essas eu já carregava todas, cicatrizando torto.
O que se abriu foi uma clareira escura,
uma lucidez triste,
uma constatação doída:
A voz dele nunca quis me tocar.
Quis me apagar.
E mesmo assim,
mesmo sangrando, mesmo tremendo,
eu respondi com amor.
Porque amar é o vício dos que um dia acreditaram demais.
“Eu sou a mulher que te amou…”
“Eu não quero mais brigar.”
“Fica bem.”
Eu disse essas coisas como quem coloca cobertores sobre um cadáver
sabendo que não há calor possível ali,
mas ainda tenta proteger alguma lembrança
do que imaginou que poderia ter sido.
A verdade é que eu já estava sozinha há muito tempo.
Ele só me lembrava disso de forma mais cruel.
Enquanto as mensagens dele desciam como lâminas,
eu senti algo dentro de mim se desfazendo,
Em uma sensação forte e dolorida, mas quase que libertadora
como quando a névoa se abre
e finalmente revela que o caminho que você insistia em seguir
é um penhasco.
E naquela madrugada sombria,
eu compreendi:
Eu não era pequena.
Ele é que era raso.
Eu não era fraca.
Ele é que precisava me ferir para não afundar sozinho.
Eu não era o caos.
Ele é que confundia amor com destruição.
E foi então que a sombra falou primeiro.
A minha, não a dele.
Ela sussurrou:
“Vai.”
“Acaba.”
“Te escolhe.”
E pela primeira vez,
eu obedeci.
Não atendi.
Não voltei.
Não me curvei à fome dele,
à raiva dele,
ao deserto emocional onde ele queria que eu me perdesse.
A madrugada terminou,
mas não levou nada de mim.
Pelo contrário
me devolveu.
E eu acordei com a certeza amarga
de que o amor não morre de uma vez.
Ele morre nas pequenas violências,
nas palavras que arrancam pedaços,
nas madrugadas em que a gente percebe
que o que a gente chama de “saudade”
é só a esperança morrendo lentamente.
Mas a morte do amor, por mais sombria que seja,
é também uma porta.
E eu atravessei.
