RELÓGIOS DE DALÍ

Às vezes eu penso que nós dois existimos numa dimensão própria, dessas que ninguém explica e poucos suportam.
Um lugar onde o tempo não corre em linha reta, mas se derrete devagar… o tempo distorcido como nos relógios de Dalí, escorrendo pelas bordas dos dias, escancarando a falta que você me faz.

Há momentos em que juro sentir você ainda aqui, não no corpo, não na voz, não na resposta que nunca chega, mas naquela fresta invisível onde duas almas que se tocaram continuam estremecendo, mesmo separadas.
É um território doloroso… mas também é o único onde ainda te encontro.

Eu penso em nós e o mundo perde sua forma. As horas, que deveriam me afastar de você, na verdade me empurram de volta para o mesmo lugar: aquele onde eu te espero, mesmo tentando não esperar.
Aquele onde eu te busco, mesmo prometendo não buscar mais.

E é estranho… porque tudo em mim sabe que você foi embora, mas tudo em mim também insiste que sua ausência é só mais uma dessas deformações do tempo, essas que fazem os ponteiros se curvarem, se desmancharem, ficarem moles como cera quente, até que um dia voltem a se recompor.

Talvez seja loucura. Talvez seja amor. Talvez seja só a memória do que fomos, latejando como um eco que não quer desaparecer.

Mas eu sigo aqui, neste tempo torto, segurando as lembranças com as duas mãos, tentando entender se você foi ou se apenas está do outro lado da dobra, preso no mesmo relógio derretido que me prende.
E no fundo, ainda que doa, ainda que me deixe sem ar, há uma parte de mim que acredita que um dia você volta a existir no meu tempo.

Porque o que vivemos não foi comum.
Nunca foi.

E coisas assim… não acabam.
Apenas se distorcem, como os relógios de Dalí.

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