SACADA ACESA

Eu estacionei o carro ali como quem larga um corpo à beira da estrada.
A rua estava quieta demais, como se até o vento tivesse medo de tocar na minha pele estilhaçada.
Era quase meia-noite dentro de mim, mesmo que o relógio dissesse outra coisa.

E então eu a vi:
a sacada dele, acesa, um farol torto, apontado não para mim, mas para tudo que eu já não sou.
Uma luz que parecia rir da minha presença, rindo daquela vontade patética de ser vista, lembrada, notada.
Eu virei poeira e esperança esmagada no instante em que essa luz me encarou.

Eu fiquei ali presa, como se algo tivesse cravado ganchos invisíveis no meu peito.
Não dava pra ir embora.
Mas também não dava pra entrar.
Eu era uma sombra expulsa do próprio contorno.

E Deus… como doeu estar tão perto dele, tão perigosamente perto.
Perto o suficiente pra sentir o cheiro inventado da pele dele, pra ouvir memórias que só tocavam na minha cabeça.
Perto o suficiente pra ver a vida dele continuando, sem mim, do outro lado de uma parede de tijolos e silêncio.

A sacada acesa parecia um altar profano.
E eu?
Eu era o sacrifício que ninguém pediu, mas que sangrava mesmo assim.

Ali, naquela luz parada, havia uma sentença:
Ele não vai sair, não vai olhar, não vai me ver.
E o pior?
Não era porque ele não podia.
Era porque ele não queria.

Fiquei meia hora assim.
Meia hora ofertando minha dor para um deus que não existe.
Meia hora esperando por um fantasma que não tem mais rosto para mim.
Meia hora segurando um choro que queimava como se tivesse vidro dentro.

E se ele tivesse olhado para fora?
Ah…
Eu o veria.
E isso teria me matado de qualquer forma.
Ou talvez me ressuscitasse só para morrer diferente.

Mas ele não olhou.
Nem por descuido.
Nem por reflexo.
Nem por aquele impulso humano de olhar a rua antes de fechar as cortinas.
Ele não olhou porque já apagou o mapa que me levava até ele.
E eu fui embora do mundo dele sem barulho, como uma porta que fecha sozinha com o vento.

A verdade caiu sobre mim com o peso de um funeral sem flores:
não há retorno para quem te joga no lixo enquanto ainda respiras.
Ele eliminou nossas peças.
Enterrou nosso tabuleiro.
Quebrou o vínculo com o mesmo silêncio que agora me devora.

Quando liguei o carro, senti que arrancava meus próprios ossos do chão.
A rua ficou para trás, mas a sacada ficou acesa, cruel, indiferente, impassível.

E ali, enquanto eu partia, percebi algo pavorosamente real:
não fui eu que perdi ele.
Foi ele que desistiu de me enxergar, mesmo quando eu estava a poucos metros, dissolvendo viva, olhando para a porta onde meu coração ainda morava.

A sacada ficou lá.
Brilhando.
Intocável.

E eu fui embora carregando a escuridão do cadáver de um amor que só eu lutei para manter vivo e a sombra do fracasso de não ter conseguido.

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