Hoje o dia amanheceu com aquele gosto metálico de presságio ruim.
Acordei com o coração arrastando correntes, como se a madrugada tivesse passado por cima de mim com botas sujas.
E mesmo assim levantei.
Mesmo assim respirei.
Mesmo assim fui atrás de um gesto de paz.
Preparei uma cesta com tudo que ele gosta, escrevi um cartão com mãos que tremiam mais de esperança do que de medo.
Era a última tentativa de um coração já ferido demais para inventar forças.
Eu só queria que ele soubesse que ainda existia amor, mesmo que só no silêncio.
Mesmo que só entre os cacos.
Mas nada no meu dia estava destinado a ser leve.
Mais tarde, quando recebi a mensagem dizendo que ele abriu o cartão…
e jogou tudo no lixo…
Eu senti o chão sair debaixo de mim como se alguém tivesse puxado o mundo pelos cantos.
É estranho como a gente pode morrer por dentro tantas vezes e mesmo assim continuar de pé, fingindo normalidade.
É quase cômico, essa insistência do corpo em sobreviver quando a alma já pediu baixa.
E a dor veio do jeito mais cruel:
não foi o gesto, foi o significado.
Porque jogar no lixo não é só rejeição
é sepultamento.
É dizer sem palavras:
“Não quero mais carregar nada que venha de você.”
Eu me encolhi por dentro, mas continuei respirando.
Sempre continuo.
É minha maldição desde a infância: sobreviver ao que deveria ter me matado.
À noite, passei em frente à casa dele como quem passa diante de um túmulo que ainda está quente.
A sacada acesa me olhou de volta, quieta, indiferente, como um farol que guia todos os navios, menos o meu.
Fiquei lá dentro do carro, trancada com meus demônios, por longos minutos, esperando um milagre que não veio.
Esperando o vulto dele aparecer, a sombra dele atravessar a janela, qualquer respiro que dissesse:
“Eu ainda existo pra ele.”
Mas nada.
A luz acesa dele e a escuridão inteira em mim.
E então, nesse silêncio absurdo, eu entendi:
a gente só espera onde acredita que ainda existe vida.
E hoje eu aprendi que a saudade também pode ser um cemitério.
Voltei pra estrada carregando um corpo que ainda ama e uma alma que não sabe mais onde colocar esse amor.
A cesta no lixo, a porta fechada, a luz acesa, ele longe demais pra me ver
e eu aqui, sobrevivendo a mais um dia onde tudo o que eu queria era voltar pra casa dele…
mas a única casa que se abriu foi a do abandono.
E, mesmo assim, eu continuo.
Mesmo assim, eu sinto.
Mesmo assim, eu amo.
Porque meu coração, cruel como ele é, ainda acha que um dia, em algum canto do universo, ele possa olhar pra trás
e enxergar tudo aquilo que hoje ele joga fora.
