LUZES DE NATAL

Gosto de encostar o olhar na janela e ficar ali, imóvel, observando as luzes de Natal piscando como pequenos corações elétricos que não sabem se vivem ou se apagam.
Há algo nelas que me arrasta para um lugar estranho, um território onde a saudade não tem rosto e a alegria parece sempre um pouco distante demais.

É uma nostalgia que dói por dentro, como se tocasse numa parte da alma que nunca amadureceu.
E, ao mesmo tempo, é uma melancolia doce, aquela que desliza devagar, escorrendo pelas bordas da noite, sem pressa de ir embora.
É confuso: sinto um calor que não me pertence e uma tristeza que parece inteiramente minha.

Fico olhando para o brilho lá fora como quem procura vestígios de uma infância que nunca aconteceu do jeito que deveria.
Uma infância sem claridade suficiente, sem aquelas luzes penduradas nos telhados, sem árvores enormes que guardassem segredos e presentes.
Guardo poucas lembranças, e mesmo essas são pálidas, tímidas, quase silenciosas.
Era tudo simples, quase cru.
Fazíamos o que dava para fazer, e às vezes dava tão pouco.

Mas o que me pesa de verdade não é a pobreza das coisas, é a ausência das luzes que deveriam ter iluminado aquelas noites.
É esse espaço invisível onde caberia um riso que nunca ouvi, uma mesa cheia que nunca vi, um abraço que talvez tenha existido, mas que minha memória não conseguiu salvar.

Enquanto observo o piscar ritmado das luzes, sinto uma lacuna antiga abrindo se dentro de mim, como uma porta que range, mostrando um cômodo vazio.
Falta algo.
Sempre faltou.
E essa falta tem o tamanho exato daquilo que não vivi.

Talvez seja por isso que o Natal me atravessa tanto: ele traz a promessa dolorosa de um tempo que eu deveria ter tido, mas que a vida não me deu.
E eu fico presa entre o brilho que me chama e a sombra que me lembra.

Ainda assim, olho.
Olho porque essa dor tem um certo brilho, um brilho torto, mas meu.
Olho porque, de alguma forma cruel e silenciosa, essas luzes me devolvem um fragmento do que faltou.
Um fragmento pequeno, quase irrisório, mas suficiente para iluminar, por um instante, a criança que eu fui e a mulher que eu sou.

E ali, naquele segundo suspenso, sinto que talvez eu não pertença a essas luzes.
Mas elas, por um capricho estranho da noite, pertencem a mim.

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