A chave, o parafuso e eu

Depois de um grande silêncio que gritava em minha mente, ele me ligou,
ligou pra perguntar que chave devia usar pra soltar um parafuso.
Era só isso.
Entre tantas coisas que já fiz por ele, tantas conversas, tantas noites acordada, tantas lágrimas contidas, hoje a dúvida era sobre uma ferramenta. Uma simples chave de boca.

E eu ali, do outro lado, ouvindo aquela pergunta prática, banal, sabendo que o problema não era o parafuso, nem a caixa de ferramentas.
Era ele.
Era o mesmo impulso que o faz desmontar tudo o que eu faço, como se meu toque fosse sempre duvidoso, como se minha entrega precisasse ser revista, conferida, desfeita.

Ele vai até lá, tira o que eu fiz, desmonta o certo, perde tempo, se irrita, se enrola.
E no final vai descobrir, de novo, que eu tinha feito tudo certo.
Mas nunca vai admitir.

Porque o problema nunca foi o encaixe do parafuso.
O problema é o encaixe de nós dois.
Ele precisa provar pra si mesmo que eu erro, que eu não sei tanto, que o mundo ainda está sob o controle dele.
Ele desmonta o que eu construo pra se sentir inteiro.
Mas o que ele não percebe é que, enquanto tenta encontrar um defeito nas minhas mãos,
ele vai perdendo o pouco que ainda resta das dele.

E eu fico aqui, parada, olhando pra esse mesmo ciclo se repetir.
Ele desmonta, refaz,
e eu continuo tentando entender o que mais posso fazer pra que ele perceba que não era o parafuso que estava errado,
era o jeito que ele segurava a chave.

Eu já fui a ferramenta certa pra tanta coisa.
Fui o encaixe perfeito de tantos problemas dele.
Fui o ombro, o ouvido, a paciência e até o silêncio.
Mas nunca o amor, nunca a escolha.

No fim, eu sou como aquela peça que ele insiste em ajustar, mesmo já encaixada.
Ele gira, força, tenta de novo, como se algo ali ainda pudesse melhorar.
E quanto mais ele força, mais ele estraga o que estava pronto, o que estava certo, o que poderia funcionar.

Hoje eu entendi.
Ele não confia no que vem fácil, no que é verdadeiro, no que não dói.
Ele precisa desmontar pra se sentir necessário.
E eu, por amor, deixei ele desmontar até o que havia de mim.

Agora eu me sinto como aquele parafuso, gasto, espremido, sem força pra sustentar.
Ele vai embora levando a chave, e eu fico aqui,
no chão do coração,
tentando não me desfazer por completo.

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