Hoje eu atravessei a cidade como quem atravessa um deserto por miragem.
Não fui por coragem.
Fui por cansaço.
Por essa exaustão que nasce quando o coração já não aguenta carregar perguntas sem resposta.
Toquei o interfone.
E ele atendeu.
A voz dele saiu pelo fio como um fantasma familiar
e, por um segundo, o mundo pareceu reconhecer meu nome outra vez.
Ele desceu.
Me deixou subir.
E ali estava ele
tão perto que doía
tão longe que parecia impossível tocar.
Estava lindo.
O mesmo menino que um dia foi casa.
O mesmo rosto que minha memória insiste em chamar de abrigo.
Mas agora havia um vidro invisível entre nós
um muro feito de decisão.
Eu quis falar.
Cinco minutos.
Um minuto.
Um sopro de verdade.
Mas não me deixaram existir.
As palavras ficaram presas na garganta
como pássaros batendo asas contra uma janela fechada.
Ele disse que não queria mais contato.
Disse como quem fecha uma porta sem olhar para trás.
E me expulsou
de novo
como se eu fosse um erro reincidente
como se sentir fosse um crime.
Enquanto ele falava, eu vi.
O corpo dele tremia.
Um tremor curto, contido, involuntário.
Não era amor.
Era tensão.
Era medo.
Era tudo o que não se sabe nomear quando o coração não sabe sustentar o que sente.
E mesmo assim doeu.
Porque até o que não é amor
quando vem de quem foi tudo
machuca como despedida.
Desci sozinha.
Voltei para a rua com o mundo mais pesado do que quando cheguei.
Levantei os olhos
e lá estava
a sacada acesa.
Ele dentro.
Eu fora.
Entre nós, um silêncio definitivo
desses que não gritam, mas esmagam.
Agora estou em casa.
No sofá.
Diante do tabuleiro de xadrez.
Peças imóveis.
Rei encurralado.
Nenhum movimento possível que não leve à perda.
Hoje eu não perdi você.
Hoje eu perdi a chance de ser ouvida.
Perdi o direito de explicar.
Perdi a última esperança de que a dor tivesse voz.
E o mais cruel não foi o “não”.
Foi não poder dizer nada antes dele.
A sacada segue acesa.
E eu sigo aqui
tentando entender como alguém pode tremer diante de quem machuca
e ainda assim escolher ir embora.
Hoje eu aprendi
que algumas portas até se abrem
mas não para acolher
apenas para confirmar
que já não somos mais bem-vindas.
