Ela – A Torre

No tabuleiro dele, a Torre é peça sólida.
Não corre como o cavalo, não dança como o bispo, não é livre como a rainha.
Ela permanece.
Vertical, firme, guardando o território.
Avança em linha reta, nunca em curvas
porque sabe que, no jogo dele, a estabilidade é arma e escudo ao mesmo tempo.

Mas a Torre… ah, a Torre também é outra.
Não a de madeira ou marfim, mas a de pedra e silêncio.
Erguida no alto, cercada por muros e histórias que nunca se cumpriram.
Ali dentro, uma donzela não tão frágil quanto parece.
Com o vestido amassado pelo tempo e os olhos cansados de olhar a estrada,
espera pelo príncipe ou pelo rei que talvez nunca venha.
Ou que venha tarde demais.
Enquanto isso, ela sonha com finais felizes
que sempre parecem caber melhor nos livros do que na vida real.

A Torre, no jogo, protege o rei.
A Torre, no conto, espera ser protegida por ele.
Mas nessa história, as duas se misturam.
E ela é, ao mesmo tempo, guardiã e prisioneira.
Defende quem ama com a força de pedra,
mas se mantém sozinha, no alto, onde o vento bate mais frio.

Talvez ela não precise ser resgatada.
Talvez já saiba que o rei dessa história chega cansado,
tarde e com as mãos vazias,
não é o mesmo que prometeu lutar contra dragões.
Talvez um dia ela mesma desça, peça por peça, degrau por degrau,
e abandone a torre no tabuleiro dele.

E então, sem muros e sem esperas,
ela descubra que pode ser rainha no seu próprio jogo.

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