Carta que nunca será entregue

Eu me joguei.

Num instante de loucura, ou esperança, me esqueci de mim, e fui inteira.
Naveguei na ilusão doce dos teus olhos que brilhavam como faróis, me guiando por um mar que parecia seguro… mas era só engano.

Você me convidou a entrar.
Abriu a porta, acenou com aquele sorriso e me disse, com gestos e silêncios, que eu podia ir mais fundo.
E eu fui. Porque quis acreditar.
Porque meu coração ainda não sabia desconfiar de quem brilha demais por fora e se apaga por dentro.

Teu beijo incendiou meu corpo, e por um instante, por um segundo suspenso no tempo, eu desejei ser sua. Só sua.
Eu achei que você também queria.
Você me olhava como quem vê a alma.
Me tocava como quem quer ficar.
Me apertava como quem sente.

Mas no instante seguinte… sumiu. Sumiu com tudo.
E me deixou presa em mim. No reflexo de algo que você olhou e decidiu não querer mais.
Me vi em seus olhos como um erro, como algo a ser evitado. Você apagou a luz.
E eu, ali, ainda tremendo por dentro, tentando entender onde foi que virei monstro nos seus olhos.

Você me destruiu sem gritar. Me matou em silêncio, com a ausência.
E ainda sorri de vez em quando, como se nada tivesse acontecido.

Hoje, eu ainda me reviro por dentro tentando encontrar a parte de mim que você levou.
Ainda tento costurar os pedaços da mulher que acreditou em você.
Que mergulhou sem medo e se afogou sozinha.

E sabe o que é pior? Eu ainda te vejo.
Ainda sorrio por obrigação.
Ainda me forço a parecer “normal”, como se isso nunca tivesse me cortado.

Mas essa carta é pra mim.
Pra me lembrar que eu não sou o que você viu.
Não sou o que você quis destruir.
Sou mais que isso. Sou inteira, mesmo quebrada.
E uma hora, isso tudo vira cura.

Adeus.
Mesmo que você nunca saiba.

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