Durma bem sob meus mísseis

Ele disse, com a frieza de quem aponta uma arma pra dentro do peito de alguém:
“Durma bem sob meus mísseis.”

E essa frase ficou ali, suspensa no ar, feito fumaça tóxica que não se dissipa.
Ficou ecoando nas paredes da madrugada, atravessando a carne, corroendo tudo que ainda restava de claro dentro de mim.

“Durma bem sob meus mísseis.”
Como se fosse possível dormir quando alguém acende guerras dentro do seu nome.
Como se o descanso existisse quando a voz dele, afiada como lâmina, insiste em atravessar o silêncio.

A cada palavra dele, um impacto.
A cada ofensa, um estilhaço.
A cada risada cruel, um novo bombardeio caindo sobre as ruínas que antes foram meu peito.

Ele fala de guerra como quem fala de trivialidades.
Ele me chama de país inimigo, terrorista, ameaça.
Ele transforma nossa história em campo minado, e então exige que eu caminhe, descalça, frágil, tateando a escuridão.

E repete:
“Durma bem sob meus mísseis.”

Como se fosse um desejo.
Como se fosse um carinho que se veste de pólvora.
Como se meu corpo fosse geografia a ser invadida, devastada, posta abaixo.

Eu escuto a frase de novo, não porque quero, mas porque ela se alojou atrás dos meus olhos, latejando.
Ela vibra no chão interno onde meus passos tentam existir.
Ela me cerca como sirene distante que anuncia que não há refúgio possível.

“Durma bem sob meus mísseis.”
A frase que ele atira com a precisão de quem sabe onde dói.
A frase que ele escolheu para reduzir meu coração a cinzas silenciosas.

E eu, que só queria paz.
Eu, que só queria a suavidade de uma madrugada sem ruído.
Eu, que só queria não ser alvo de ninguém.

Mas ele ergueu guerra onde eu ofereci abrigo.
E transformou minha ternura em território conquistado e abandonado.

A noite inteira ficou marcada pelo som imaginário de explosões que não vieram do céu, vieram da boca dele.
Cada sílaba carregando pólvora emocional, cada palavra acendendo clarões dentro da minha mente cansada.

Eu tentei fechar os olhos.
Tentei respirar.
Tentei fingir que o mundo não estava desabando no vão da minha garganta.

Mas lá estava ele, repetindo, mesmo em silêncio:
“Durma bem sob meus mísseis.”

E a verdade é que não existe sono onde há medo.
Não existe descanso onde há ameaça.
Não existe sonho onde alguém te aponta a própria voz como se fosse uma arma.

Assim amanheceu o dia:
Com a frase dele estilhaçada dentro de mim,
com meus escombros tentando não fazer barulho,
com minha pele tremendo como cidade bombardeada antes do sol nascer.

E no fundo da madrugada que ainda não se apagou,
a frase continua.

Sombria.
Cínica.
Cruel.

“Durma bem sob meus mísseis.”
E eu sigo acordada, não porque quero,
mas porque ninguém dorme tranquila quando virou alvo.

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