Entre o que é nosso e o que nunca será

Começou como começam as coisas que não deveriam começar.
Sem planejamento, sem promessa, sem espaço e ainda assim, com uma facilidade desconcertante.

Era pra ser só uma conversa.
Depois, só um encontro.
Depois, só um momento.

E quando vimos, já não cabia mais em “só”.

Havia algo no jeito como ele olhava,
como se, por alguns instantes, o mundo parasse de cobrar tanto.
E havia algo nela também
uma entrega que não sabia ser pequena, que nunca aprendeu a ser metade.

Dois adultos, comprometidos, responsáveis…
e ainda assim, dois fugitivos.
Não da vida, mas da ausência dentro dela.

Porque não era falta de tudo.
Era falta de algo específico.
Aquele tipo de falta que não grita… mas cansa.

E então veio o primeiro encontro.
O segundo.
As mensagens que ocupavam o dia inteiro como se o resto fosse intervalo.

E veio também o susto.

Porque não era mais só desejo.
Era presença.
Era pensamento recorrente.
Era vontade de ficar… mesmo sabendo que não podia.

Eles aprenderam rápido a falar em códigos.
A esconder o que sentiam atrás de risos, ironias e horários improváveis.
Aprenderam a existir nos espaços onde ninguém vê e talvez por isso mesmo, ali tudo parecia mais intenso.

Mas intensidade nunca foi sinônimo de segurança.

Ele dizia que estava preso onde estava.
Ela dizia que queria consertar o que tinha.
E, no meio disso, construíam algo que não cabia em nenhuma das duas realidades.

Era bonito.
E era errado.
E era real.

Tão real que assustava.

Houve ausência.
Houve testes.
Houve silêncio.

E ainda assim… havia retorno.

Porque quando se encontravam no olhar, na conversa, no toque
tudo parecia fazer sentido de novo.

Mesmo não fazendo.

Ela sabia do lugar dela.
Ele também.
Mas saber nunca impediu ninguém de sentir.

E talvez esse seja o maior risco de histórias assim:
não é o começo…
é a continuidade.

Porque não há planos possíveis,
não há promessas seguras,
não há garantias.

Só há o agora.

E o agora, quando é bom,
engana.

Faz parecer suficiente.
Faz parecer sustentável.
Faz parecer que dá pra viver ali, naquele intervalo roubado do mundo.

Mas toda história que vive escondida
cobra um preço à luz do dia.

E no fundo, bem no fundo,
os dois sabem.

Sabem que isso não é construção.
É travessia.

Sabem que não é destino.
É pausa.

Mas mesmo assim… ficam.

Porque às vezes, entre o que é certo e o que é sentido,
o coração escolhe o que o mundo não sustenta.

E chama isso de vida.

Categories


Search