ENTRE O QUE SOBRA E O QUE NASCE


Há histórias que não sabem terminar.
A nossa é uma delas.
Ela não se despediu.
Só mudou de forma, como um rio que procura outro caminho quando a margem cede.

E eu percebi isso no dia em que tudo entre nós mudou, não com um estrondo, mas com o teu silêncio, que pesa mais do que qualquer grito.

Eu sempre te vi como um lugar onde meu coração podia descansar.
Um homem cheio de sombras, sim, mas também cheio de brilhos raros, desses que a vida não entrega duas vezes.
Enquanto tu te defendia do mundo, eu me aproximava sem medo, acreditando que carinho também é uma forma de luz.

Eu fui presença onde tu enxergou perigo.
Eu fui cuidado onde tu pressentiu caos.
Eu fui verdade onde tu supôs excessos.
E talvez tenha sido justamente isso que te assustou: alguém que não recuou diante das tuas feridas.

Porque amar alguém que carrega armaduras custa caro.
A gente tenta entrar pelas frestas, mas às vezes o toque vira ameaça aos olhos de quem nunca soube ser amado de forma tranquila.

Quando tu ergueu muros que eu nunca imaginei, um frio atravessou meu peito.
Não por raiva, mas por tristeza.
Foi estranho demais perceber que alguém por quem eu vivi tanta intensidade podia me enxergar como algo a ser afastado.

E ainda assim… eu não consegui te ver como inimigo.
Eu te conheço demais para isso.
Eu vi o teu coração por trás dos medos.
Eu vi o que tu tenta esconder do mundo inteiro.

Por isso eu não respondi com fúria.
Eu me fiz silêncio.
Um silêncio cheio de amor, daqueles que não imploram mais, mas também não amaldiçoam.
Um silêncio que guarda o que foi bonito, mesmo quando o mundo tenta envenenar a lembrança.

E, por mais estranho que pareça, foi nesse silêncio que eu encontrei esperança.

Esperança de que tu um dia veja quem eu realmente fui.
Esperança de que percebas que eu nunca ultrapassei nada, que nunca quis te ferir, que nunca desejei ser tormenta.
Esperança de que tu descubra, em algum canto da vida, que não precisa temer quem só quis ficar.

E se esse dia não vier…
ainda assim eu sigo acreditando no amor.
Não como prisão, mas como caminho.
Não como ameaça, mas como semente.

Talvez um dia tu voltes.
Talvez não.
Mas o que vivi ao teu lado me ensinou que há algo em mim que não se apaga: a minha capacidade de amar intensamente, mesmo quando o mundo tenta me transformar em sombra.

E é isso que me salva.

Porque, no fundo, entre a dor e a escuridão, sempre existe uma fresta de luz esperando para nascer.
E eu escolho caminhar até ela, assim como queria muito que você viesse comigo.

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