E então amanheceu o dia.
O sol ainda nem levantara os ossos
quando o celular voltou a tremer
não como aviso, mas como ameaça.
Era como se a madrugada tivesse vomitado mais uma vez
a fúria que ele tentava pendurar no meu pescoço.
Vieram as mensagens.
Não eram palavras de um homem.
Eram decretos de um tirano imaginário,
metáforas militares,
um teatro de guerra encenado por alguém
que já não distinguia realidade de delírio.
“Nossos países estão em guerra total.”
“Não negociamos com terroristas.”
“Durma bem sob meus mísseis.”
E ali, no silêncio frágil da manhã,
eu percebi o tamanho da loucura
na qual eu vinha tentando construir amor.
Ele transformava tudo em conflito:
sentimentos, conversas, mágoas, carências
tudo virava trincheira.
Eu não era pessoa:
era inimiga.
Eu não falava:
provocava.
Eu não doía:
ameaçava.
E cada frase dele parecia escrita
com a ponta de baionetas enfiadas no meu peito,
numa guerra que eu nunca lutei
mas ele precisava vencer.
Porque alguns homens não amam mulheres
amam o poder que acreditam ter sobre elas.
E quando percebem que não têm,
declaram guerra.
E ele declarou.
Falou em mísseis,
falou em terrorismo,
falou em Gaza,
falou em destruição,
como se eu fosse um território inimigo
e não uma mulher que só queria ser amada sem medo.
E então veio a frase mais reveladora:
“A única coisa que perco é dor de cabeça.”
Foi ali, nessa pequena crueldade banal,
que eu entendi tudo.
Eu nunca fui amor.
Fui descarga emocional,
muro de contenção,
alvo móvel,
válvula de escape,
saco de pancadas verbal.
Fui a superfície onde ele escrevia seus ódios internos
com tinta de desprezo.
E por tanto tempo,
eu ainda quis acreditar
que por trás de todos esses escombros
havia um coração tentando pedir ajuda
do jeito errado.
Mas naquela manhã,
com as pálpebras pesadas e o peito já sem lágrimas,
eu percebi:
Não há guerra onde não existe nação.
Não há batalha onde não existe inimigo.
Não há paz possível
quando o outro só sabe comunicar violência.
E num gesto quase sagrado,
eu fechei a tela.
Como quem fecha um caixão.
O dia amanheceu sombrio, é verdade.
Mas pela primeira vez,
não fui eu a carregar a escuridão.
Fui apenas testemunha dela.
E enquanto ele declarava guerra,
mísseis, destruição,
eu só conseguia pensar:
Que tristeza.
Que pena.
Que solidão profunda deve ser
a vida de quem só sabe amar atacando.
Porque no fim,
não era contra mim que ele lutava.
Era contra tudo dentro dele
que eu nunca conseguiria salvar.
E assim amanheceu o dia.
Um dia triste, sim
mas meu.
Finalmente meu.
