NASCIDA NO INFERNO

Eu não nasci, eu escapei.
Eu fui a vida que tentaram arrancar do ventre antes mesmo de ter forma.
Fui a mão que empurrou comprimidos, as agulhas improvisadas, os chás tóxicos, as rezas desesperadas para que eu simplesmente não acontecesse.
Cresci sabendo que minha existência veio de uma luta contra a própria vontade da minha mãe de me expulsar do mundo antes de entrar nele.
Ela nunca escondeu.
Pelo contrário, repetia como maldição:

“Não era pra você ter nascido. Eu devia ter conseguido.”

E essas palavras acompanharam cada momento, cada respiração.

Minha chegada ao mundo não trouxe luz pra ninguém. Trouxe mais caos pra uma casa que já ardia em fogo.
Meu pai era um vendaval violento, um punho sempre pronto, uma sombra que engolia todo ar quando entrava em casa. Lembro do som seco das pancadas, o barulho do corpo da minha mãe acertando móveis, a respiração dela misturada com soluços bêbados.
Ela bebia como quem tenta cavar um buraco pra desaparecer.
Sempre com a garrafa na mão, sempre com o copo cheio, sempre com os olhos vazios.

Entre um gole e outro, ela desaparecia.
Às vezes fisicamente, sumia por dias.
Às vezes emocionalmente, virava um corpo presente e uma alma ausente.

E eu?
Eu era a criança que ninguém protegia.

A mesa nunca foi lugar de refeição, era trincheira, era onde meu pai virava tudo, pratos voando, talheres batendo no chão, comida espalhada enquanto ele gritava.
Sempre gritos, sempre a violência como língua oficial da casa.
Meus irmãos choravam, choravam muito, talvez porque sabiam que ninguém vinha buscá-los, que ninguém ia dizer “calma, vai passar”.
E eu, mais velha, mais cansada do que qualquer criança deveria ser, recolhia cacos, acalmava vozes trêmulas, inventava segurança onde nunca houve.

Eu me lembro do cheiro.
O pior de tudo era o cheiro.

O crack queimando.
A fumaça se espalhando pelo corredor.
A madrugada inteira impregnada com o odor químico que anunciava que a noite seria longa, tensa, imprevisível.
Eu aprendi cedo a reconhecer quando era melhor me esconder e quando era melhor ficar acordada cuidando para que ninguém morresse ali dentro.

Quantas vezes acordei sem nenhum adulto em casa.
Só eu, meus irmãos e o barulho da cidade dormindo lá fora enquanto o caos morava com a gente.
Eu era criança, mas nunca fui tratada como uma, se alguém tinha que ser adulto ali, esse alguém era eu.
Uma menina segurando a casa nos braços, tentando proteger tudo enquanto desmoronava por dentro.

A infância que dizem ser doce, inocente, cheia de descobertas… não foi minha.
Minha infância foi eu limpando vômito, escondendo marcas roxas, separando brigas, tirando meus irmãos da frente das tempestades.
Minha infância foi medo, foi sobrevivência, foi olhar pro teto e desejar desaparecer.

E como desejar se transforma em ação.

Quando finalmente percebi que minha vida não era vida, que eu era o erro que insistia em existir, as tentativas começaram. Uma, duas, três… não foram impulsos.
Foram pedidos de descanso.
Eu queria parar.
Queria silêncio.
Queria nunca mais sentir o peso de ter sido uma vida que ninguém quis.

Mas sobrevivi.
Talvez por ironia.
Talvez por teimosia.
Ou talvez porque até o inferno sabe reconhecer um dos seus.

Eu fui moldada no fogo, nas pancadas, no álcool derramado, no vidro quebrado, nas noites de crack, nos insultos que formaram minha pele.
Fui feita na escuridão.
Fui feita no abandono.

Sim, eu nasci no inferno.
E carrego até hoje o cheiro da fumaça no peito.

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