Existe um mundo onde vivem os amores não vividos, as histórias não contadas, as peças não escritas.
Eles moram nos olhos que miram de longe, nos abraços que não foram dados, nas bocas que não mais se encontraram no meio de um riso tímido ou de um impulso inevitável.
É lá que mora o amor dela.
Ela não sabe exatamente quando se deu conta disso, mas em algum ponto da caminhada percebeu que tinha sempre ficado de fora do espetáculo.
Nunca foi o par romântico da história, nunca o nome gritado no meio da multidão.
Estava sempre nos bastidores, ajudando, torcendo, iluminando a cena para que outros brilhassem.
Ela se casou.
Construiu uma vida ao lado de alguém que talvez tenha aprendido a amar, mas onde a paixão nunca habitou de verdade.
Beijos? Raros. Olhares que devoravam? Nunca.
Era companhia, rotina, parceria, mas o fogo, aquele que queima o peito e faz o corpo inteiro vibrar de presença, esse parecia existir só nos filmes ou nas histórias alheias.
E mesmo assim, ela seguia amando amar.
Talvez por isso se encantou por um certo sorriso, por um olhar que parecia ver algo nela que ninguém mais via.
Mas foi só por instantes.
Mais uma vez, era a conveniência, a escuta, a companhia, nunca o centro do desejo.
O palco não era dela. Nunca foi.
E então ela chorou.
Não por ele, mas por tudo que não viveu.
Por cada beijo que não aconteceu, por cada noite em que se deitou desejando ser vista, tocada, sentida.
Pela menina que ainda mora dentro dela e que só queria, por uma vez que fosse, ser escolhida.
Alguns chamariam de carência.
Mas não é.
É ausência de um amor que seja inteiro, que não peça licença pra existir.
É fome de ser amada com pressa, com entrega, com verdade.
É saudade de algo que ela nunca teve, mas que sabe, lá no fundo, que existe.
Ela continua.
Com o coração em retalhos, sim, mas ainda inteiro em sua coragem.
Talvez um dia o palco seja seu.
E nesse dia, ela vai descobrir que toda essa espera, toda essa dor,
nunca foi por não ser o bastante
mas por merecer mais do que qualquer um foi capaz de dar até agora.
