Nunca foi sobre um lugar.
Não era a cidade, aquele mar que tinha cor ou o sofá onde ele dormia tantas vezes.
Era sobre a presença.
A presença real, viva, inteira, aquela que sustenta, que acolhe, que diz “eu tô aqui” sem precisar falar.
Mas ele nunca esteve.
Falava de “família” como quem oferece abrigo, mas sempre com o olhar de quem já está de partida.
Falava de “tempo”, mas era um tempo que escorria pelos dedos, sempre jogado para depois, para quando der, para o talvez.
E eu, tola que sou, me agarrei ao talvez como quem se agarra a uma boia em mar aberto, achando que isso era o bastante para não afundar.
Na sombra desse “talvez”, eu fui apagando.
Apagando a alegria de chegar, apagando os sorrisos espontâneos, apagando a esperança que um dia ele me olhasse e enfim me enxergasse.
Fui me perdendo em cada espera, em cada tentativa de ser o que ele precisava, sem perceber que o que eu precisava mesmo era ser vista, ouvida, escolhida.
Até que um dia ele olhou e não viu mais nada.
E me deixou ali.
Sozinha.
No vazio.
No vazio de um espaço onde a palavra “família” nunca teve chão,
No silêncio de um “depois” que nunca chegou,
Na dor de um “nós” que só existiu dentro de mim.
