• O Mesmo Sofá de Sempre (continuação…)

    Saí da casa dele com o coração pesado.
    A rua estava silenciosa, o vento frio da noite me acertava o rosto como quem tenta acordar alguém de um sonho ruim.
    Mas eu já estava desperta demais.
    Cada passo que eu dava parecia carregar o peso de tudo o que eu senti ali dentro, o medo, o alívio, a raiva, o amor.
    Tudo junto, embolado, sem começo e sem fim.

    Entrei no carro e fiquei um tempo parada, olhando pro nada.
    As mãos ainda tremiam.
    Na mente, o som da voz dele ecoava, aquele tom calmo, meio distante, como se nada tivesse acontecido, como se meu desespero fosse só um detalhe.
    E talvez pra ele fosse mesmo.
    Mas pra mim, foi o mundo desabando e voltando a se reconstruir em segundos.

    Naquele momento, percebi que amar alguém que vive entre o caos e o silêncio é como tentar abraçar fumaça, você se esforça, se entrega, e ainda assim acaba com as mãos vazias.
    E eu estava exausta.
    Exausta de correr atrás, de ser abrigo, de inventar motivos pra continuar acreditando que em algum lugar dentro dele ainda existe espaço pra mim.

    Mas o pior de tudo é que, mesmo sabendo de tudo isso, eu sei que se ele me ligar amanhã, eu vou atender.
    E se ele pedir pra eu ir, eu vou.
    Porque amar alguém assim é um tipo de vício, uma febre que a gente sabe que faz mal, mas ainda assim não consegue se curar.

    Cheguei em casa, sentei no sofá, o meu sofá e chorei em silêncio.
    Não por ele, mas por mim.
    Por tudo que eu insisto em sentir, por tudo que eu merecia e ainda não tive coragem de exigir.
    E ali, entre o som do meu próprio choro e o vazio da sala, eu fiz um pedido simples:
    Que um dia eu consiga voltar pra mim, com a mesma intensidade que sempre volto pra ele.

  • Portas que Guardam o Tempo

    Algumas portas são como viagens silenciosas no tempo.
    A gente gira a maçaneta e, de repente, tudo ao redor parece suspenso, o ar, o som, as lembranças.
    Hoje eu abri uma dessas portas.

    Vim ao meu consultório depois de tantos meses.
    O lugar parecia o mesmo, o cheiro levemente adocicado do ambiente, o som do eco dos meus passos…
    Mas havia algo diferente ou talvez fosse eu quem já não era mais a mesma.

    Assim que entrei, senti uma mistura de saudade e reconhecimento.
    A maca estava ali, pronta como se esperasse o próximo atendimento.
    O jaleco, ainda pendurado na cadeira, parecia guardar meu último gesto, minha última conversa, meu último abraço de despedida.
    As fichas de anamnese repousavam silenciosas sobre a mesa, como se os pacientes ainda estivessem por perto, aguardando seu retorno.
    Os relatórios de desenvolvimento terapêutico, alinhados com cuidado, guardam histórias, conquistas, lágrimas, e pequenas vitórias que só o tempo e a escuta conseguem registrar.

    Tudo parece igual e, ao mesmo tempo, tão distante.
    Cada detalhe do lugar me devolve a lembrança do sonho que um dia plantei aqui:
    as tardes em que escolhi os desenhos das paredes com o coração batendo de entusiasmo,
    os quadros pendurados com tanto cuidado,
    os livros organizados por tema, por cor, por carinho.
    Tudo isso fala de mim, de uma versão minha que acreditava que esse espaço seria eterno.

    Não sei se volto a atender.
    A vida tem dessas pausas que não pedem licença, às vezes ela muda o ritmo, muda o rumo, e só nos resta respirar fundo e seguir o novo compasso.
    Mas hoje, sentada aqui, depois de tanto tempo, sinto algo como um reencontro comigo mesma.

    Há lugares que não são apenas lugares, são extensões da alma.
    E, de algum modo, mesmo em silêncio, eles continuam vivos, esperando por nós.

    Talvez eu volte.
    Ou talvez apenas venha visitar de vez em quando, só para lembrar quem eu fui,
    e o quanto de mim ainda existe entre essas quatro paredes que guardam não só memórias,
    mas o eco de tudo que já fui capaz de curar, dentro e fora de mim.

  • Loucura

    Enlouqueci.
    Depois de tanto tempo, tantos anos,
    retornei ao pávido e terrível estado mental.
    Nada faz sentido
    o mundo nunca me pertenceu,
    sou apenas alma errante pelas ruas,
    vagando entre milhões de pensamentos desconexos,
    onde nada se encontra.

    Carcaça moldada pelo tempo,
    por fora um sorriso ensaiado,
    por dentro um abismo
    onde a insanidade cava morada e consome.

    O desejo de fugir é iminente.
    Não para um lugar
    mas de mim mesma.
    Fugir dessa loucura sem saída.
    E nessa estrada,
    ah, nessa estrada,
    não há placas de retorno.

    Acelero:
    80… 100… 120… 140 km/h.
    Na tentativa de correr mais rápido
    do que meus pensamentos,
    mas eles me alcançam,
    gritam alto:
    “Pare.”

    E então
    um estrondo.
    Um ponto final.
    Silêncio.
    Acaba a história.

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