• Eu, covarde…

    Covardia é estender a mão pedindo o teu amor
    quando ainda tremo diante dos meus próprios abismos.

    E se você dissesse “sim”?
    O que eu faria com esse milagre entre os dedos?
    Como poderia ser inteira
    quando tantas vezes ainda me sinto em pedaços?

    Covardia é chamar teu coração para perto
    e não saber se consigo ser colo,
    se consigo ser porto.
    É o medo de, sem querer,
    ser mais uma ferida em tua pele cansada de batalhas.

    E no entanto, mesmo com o medo,
    teu nome pulsa em mim como reza,
    teu rosto insiste em habitar meus sonhos,
    tua presença arde como promessa.

    Talvez a covardia não seja querer-te,
    mas duvidar de que eu possa ser suficiente.
    Porque o amor que sinto por ti não é dúvida,
    é só o meu próprio reflexo que ainda se esconde.

    E ainda assim, se vieres,
    talvez descubras que até nos meus pedaços
    eu te amaria inteiro.

  • Carta para aquela que vir depois de mim

    Cuida bem dele…
    Ele é e sempre será o amor da minha vida.

    Haverá dias em que ele vai se perder em silêncios,
    em que a tristeza vai pesar nos ombros dele,
    mas mesmo assim, se você olhar com carinho,
    vai encontrar no meio das sombras
    a melhor pessoa do mundo.

    Cuida dele,
    porque serão seus os olhares profundos
    que parecem atravessar a alma,
    lendo segredos que nem você ousou confessar.

    Cuida dele,
    porque será em você que vai nascer
    o sorriso mais lindo que eu já vi,
    o mesmo sorriso que, em mim,
    foi sonho e refúgio.

    Talvez você não conheça os muros
    que ergueu entre ele e eu,
    talvez ele se entregue inteiro a você
    da forma que eu tanto esperei
    mas nunca pude viver.

    Cuida dele…
    porque, por trás da força,
    ele é só um menino querendo colo,
    pedindo para ser visto,
    ansiando por um cuidado
    que nunca teve de verdade.

    Cuida bem dele.
    Ele é o amor da minha vida,
    e já não é mais a mim
    que cabe cuidar.

  • O Espelho Quebrado

    Entre nós existe um espelho,
    mas ele está partido.

    De um lado, eu
    te olhando com olhos cheios,
    com o peito aberto,
    com a alma inteira estendida em tuas mãos.

    Do outro, você
    olhando além do vidro rachado,
    procurando nas frestas
    um reflexo que já não te olha de volta.

    E assim ficamos:
    eu me ferindo nos cacos
    na esperança de que um dia
    seus olhos se desviem do passado
    e encontrem os meus.

    Mas você só vê a sombra dela,
    enquanto eu continuo sendo
    a presença que sangra em silêncio.

    E no fim, esse espelho quebrado
    só me devolve a verdade que dói:
    eu te olho como você nunca me olha,
    e você olha pra ela
    como eu sempre quis que olhasse pra mim.

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