• CALENDÁRIO DA DOR

    Te deixo no ano velho, meu menino.
    Não porque eu queira.
    Mas porque o tempo me empurrou para fora da tua vida
    sem me dar sequer a dignidade de entender por quê.
    Te deixo entre os meses que não voltam,
    entre os dias que ainda guardam o cheiro da tua ausência,
    entre as conversas que morreram sem ponto final.

    Te deixo onde ainda existe a minha versão
    que te esperava acordada,
    que te respondia de madrugada,
    que acreditava que o “depois” era real
    e não apenas uma palavra vazia para adiar despedidas.

    O ano virou.
    O céu vai se encher de fogos,
    as pessoas vão brindar promessas,
    mas aqui dentro ainda é silêncio.
    Aqui dentro ainda é quarto escuro
    com um nome que não responde.

    Te deixo no ano velho, meu menino,
    junto com o sofá que ainda lembra teu peso,
    com a sacada acesa que eu esperei,
    com as peças de um jogo que nunca mais terminou.
    Te deixo nos objetos que perderam a função,
    nas músicas que doem,
    nos abraços que ficaram suspensos no ar.

    Mas queria te encontrar no novo.
    Nem que fosse num gesto simples,
    num “como você está”,
    num olhar que dissesse “eu lembro”.
    Nem que fosse só para fechar o livro
    que você rasgou no meio.

    Queria te encontrar no novo
    não para recomeçar,
    mas para poder terminar com humanidade
    o que acabou em silêncio.
    Te deixo no ano velho
    com a versão de mim que ainda te chama de lar.

    E sigo.
    Com as mãos tremendo,
    com o coração em luto,
    com passos lentos,
    mas sigo.
    Porque algumas pessoas não atravessam o ano conosco.
    Elas ficam presas no tempo
    onde ainda doía menos amar.

    E você
    fica ali.
    No ano que passou.
    Onde eu ainda era tua Torre
    e você ainda parecia meu Rei.

  • SILÊNCIO

    O que mais dói não foi perder você.
    Foi perder o direito de entender.
    Não houve aviso,
    não houve preparo,
    não houve um último gesto humano que dissesse
    “acabou”.

    Houve apenas o corte seco.
    Como quem apaga uma existência com um clique
    e segue o dia normalmente,
    enquanto do outro lado alguém fica sangrando
    sem saber de onde veio a lâmina.

    Num dia, havia palavras.
    Havia rotina.
    Havia o peso estranho de quem dizia “depois conversamos”,
    como se o depois ainda existisse.
    No dia seguinte,
    o mundo fechou a porta sem barulho.

    E eu fiquei ali,
    parada no mesmo lugar,
    olhando para um tempo que não avançava,
    para um silêncio que não explicava,
    para um vazio que só crescia.

    O abandono não veio com grito.
    Veio com ausência.
    Veio com o sumiço absoluto de quem escolheu não olhar mais para trás.
    Veio com a crueldade limpa de quem não precisa justificar
    porque simplesmente pode ir embora.

    Eu tentei entender.
    Revirei cada palavra dita,
    cada gesto,
    cada promessa pequena que parecia inofensiva.
    Tentei encontrar onde errei,
    onde exagerei,
    onde deixei de ser suficiente.
    Mas não havia resposta.
    Só eco.

    O silêncio não é neutro.
    O silêncio machuca.
    Ele pesa, ele acusa, ele transforma lembrança em culpa.
    Ele faz a gente duvidar da própria sanidade,
    do próprio valor,
    da própria existência.

    E o mais cruel de tudo
    é que não me deram sequer um fim digno.
    Não me deram a chance de ouvir
    “não quero mais”,
    “não posso”,
    “não consigo”.
    Nada.

    Fui deixada conversando sozinha com fantasmas.
    Fui deixada segurando objetos que perderam o sentido.
    Fui deixada tentando fechar uma história
    que foi arrancada das minhas mãos
    e jogada fora como se nunca tivesse importado.

    Quando vi os restos
    os símbolos,
    as pequenas coisas que um dia significaram cuidado
    sendo descartados sem cerimônia,
    entendi que para você era simples.
    Para mim, era o chão abrindo.
    Porque eu não perdi só você.
    Perdi a versão de mim que existia ao teu lado.
    Perdi o futuro imaginado,
    as conversas que não aconteceram,
    as explicações que nunca vieram.

    O que mais dói
    não é o adeus.
    É a inexistência dele.
    É viver num limbo onde não se é mais nada
    nem presença,
    nem memória,
    nem sequer alguém que mereceu uma última palavra.

    Hoje, o silêncio virou um lugar.
    E eu moro nele.
    Um lugar escuro,
    onde cada dia começa com a mesma pergunta
    que nunca será respondida
    e termina com a certeza amarga
    de que algumas pessoas não vão embora
    elas simplesmente apagam você.
    E deixam você aqui
    tentando respirar
    no escuro
    com o coração cheio de perguntas
    que nunca terão voz.

  • LUZES DE NATAL

    Gosto de encostar o olhar na janela e ficar ali, imóvel, observando as luzes de Natal piscando como pequenos corações elétricos que não sabem se vivem ou se apagam.
    Há algo nelas que me arrasta para um lugar estranho, um território onde a saudade não tem rosto e a alegria parece sempre um pouco distante demais.

    É uma nostalgia que dói por dentro, como se tocasse numa parte da alma que nunca amadureceu.
    E, ao mesmo tempo, é uma melancolia doce, aquela que desliza devagar, escorrendo pelas bordas da noite, sem pressa de ir embora.
    É confuso: sinto um calor que não me pertence e uma tristeza que parece inteiramente minha.

    Fico olhando para o brilho lá fora como quem procura vestígios de uma infância que nunca aconteceu do jeito que deveria.
    Uma infância sem claridade suficiente, sem aquelas luzes penduradas nos telhados, sem árvores enormes que guardassem segredos e presentes.
    Guardo poucas lembranças, e mesmo essas são pálidas, tímidas, quase silenciosas.
    Era tudo simples, quase cru.
    Fazíamos o que dava para fazer, e às vezes dava tão pouco.

    Mas o que me pesa de verdade não é a pobreza das coisas, é a ausência das luzes que deveriam ter iluminado aquelas noites.
    É esse espaço invisível onde caberia um riso que nunca ouvi, uma mesa cheia que nunca vi, um abraço que talvez tenha existido, mas que minha memória não conseguiu salvar.

    Enquanto observo o piscar ritmado das luzes, sinto uma lacuna antiga abrindo se dentro de mim, como uma porta que range, mostrando um cômodo vazio.
    Falta algo.
    Sempre faltou.
    E essa falta tem o tamanho exato daquilo que não vivi.

    Talvez seja por isso que o Natal me atravessa tanto: ele traz a promessa dolorosa de um tempo que eu deveria ter tido, mas que a vida não me deu.
    E eu fico presa entre o brilho que me chama e a sombra que me lembra.

    Ainda assim, olho.
    Olho porque essa dor tem um certo brilho, um brilho torto, mas meu.
    Olho porque, de alguma forma cruel e silenciosa, essas luzes me devolvem um fragmento do que faltou.
    Um fragmento pequeno, quase irrisório, mas suficiente para iluminar, por um instante, a criança que eu fui e a mulher que eu sou.

    E ali, naquele segundo suspenso, sinto que talvez eu não pertença a essas luzes.
    Mas elas, por um capricho estranho da noite, pertencem a mim.

Categorias


Pesquisar