• CASA VAZIA

    Há dias em que você volta sem tocar a campainha.
    Não aparece na porta.
    Não chama meu nome.
    Você simplesmente atravessa.

    De repente apareces como sombra do passado,
    um vulto que caminha pelos corredores da minha memória,
    um fantasma que insiste em atormentar minha mente
    como se meu coração ainda fosse o teu endereço.

    Eu tentei te enterrar muitas vezes.
    Enterrei em viradas de ano,
    em promessas feitas chorando no escuro,
    em decisões que eu tomava de madrugada
    jurando que seria a última vez que doía.

    Mas você não aceita terra.
    Você não aceita fim.
    Você ficou.
    Ficou do jeito que ficam as ausências que marcam território,
    como um quarto que ninguém mais usa
    mas que ninguém tem coragem de esvaziar.

    Ainda tem o teu cheiro.
    Ainda tem a tua sombra no chão.
    Ainda tem a impressão de que, se eu chamar,
    alguém vai responder.

    Tinha tudo pra ser, ah Deus, como tinha, mas não foi.
    Tinha o depois,
    o quase,
    o “quando der”,
    tinha promessas que nunca aprenderam a nascer.

    Mas não foi.
    Você escolheu o silêncio
    e me deixou aprendendo a falar sozinha.
    Me deixou conversando com paredes,
    guardando objetos que perderam o sentido,
    dormindo ao lado de um espaço vazio que ainda ocupa lugar.

    Hoje eu não sinto apenas saudade.
    Eu sinto abandono.
    Carrego você como quem carrega um inverno dentro do peito.
    Tudo em mim esfriou um pouco depois que você foi.
    Até meus sonhos aprenderam a andar mais devagar.

    Às vezes eu paro no meio do dia,
    olho para um lugar qualquer,
    e percebo que ainda moro
    numa casa que você deixou sem despedida.

    Oxalá eu te encontre em outra vida, minha vida, onde possamos acontecer.
    Porque nesta,
    eu sigo vivendo no silêncio que você deixou,
    aprendendo a respirar num espaço que era nosso
    e que agora só ecoa o teu nome
    em paredes que não respondem mais.

  • CALENDÁRIO DA DOR

    Te deixo no ano velho, meu menino.
    Não porque eu queira.
    Mas porque o tempo me empurrou para fora da tua vida
    sem me dar sequer a dignidade de entender por quê.
    Te deixo entre os meses que não voltam,
    entre os dias que ainda guardam o cheiro da tua ausência,
    entre as conversas que morreram sem ponto final.

    Te deixo onde ainda existe a minha versão
    que te esperava acordada,
    que te respondia de madrugada,
    que acreditava que o “depois” era real
    e não apenas uma palavra vazia para adiar despedidas.

    O ano virou.
    O céu vai se encher de fogos,
    as pessoas vão brindar promessas,
    mas aqui dentro ainda é silêncio.
    Aqui dentro ainda é quarto escuro
    com um nome que não responde.

    Te deixo no ano velho, meu menino,
    junto com o sofá que ainda lembra teu peso,
    com a sacada acesa que eu esperei,
    com as peças de um jogo que nunca mais terminou.
    Te deixo nos objetos que perderam a função,
    nas músicas que doem,
    nos abraços que ficaram suspensos no ar.

    Mas queria te encontrar no novo.
    Nem que fosse num gesto simples,
    num “como você está”,
    num olhar que dissesse “eu lembro”.
    Nem que fosse só para fechar o livro
    que você rasgou no meio.

    Queria te encontrar no novo
    não para recomeçar,
    mas para poder terminar com humanidade
    o que acabou em silêncio.
    Te deixo no ano velho
    com a versão de mim que ainda te chama de lar.

    E sigo.
    Com as mãos tremendo,
    com o coração em luto,
    com passos lentos,
    mas sigo.
    Porque algumas pessoas não atravessam o ano conosco.
    Elas ficam presas no tempo
    onde ainda doía menos amar.

    E você
    fica ali.
    No ano que passou.
    Onde eu ainda era tua Torre
    e você ainda parecia meu Rei.

  • SILÊNCIO

    O que mais dói não foi perder você.
    Foi perder o direito de entender.
    Não houve aviso,
    não houve preparo,
    não houve um último gesto humano que dissesse
    “acabou”.

    Houve apenas o corte seco.
    Como quem apaga uma existência com um clique
    e segue o dia normalmente,
    enquanto do outro lado alguém fica sangrando
    sem saber de onde veio a lâmina.

    Num dia, havia palavras.
    Havia rotina.
    Havia o peso estranho de quem dizia “depois conversamos”,
    como se o depois ainda existisse.
    No dia seguinte,
    o mundo fechou a porta sem barulho.

    E eu fiquei ali,
    parada no mesmo lugar,
    olhando para um tempo que não avançava,
    para um silêncio que não explicava,
    para um vazio que só crescia.

    O abandono não veio com grito.
    Veio com ausência.
    Veio com o sumiço absoluto de quem escolheu não olhar mais para trás.
    Veio com a crueldade limpa de quem não precisa justificar
    porque simplesmente pode ir embora.

    Eu tentei entender.
    Revirei cada palavra dita,
    cada gesto,
    cada promessa pequena que parecia inofensiva.
    Tentei encontrar onde errei,
    onde exagerei,
    onde deixei de ser suficiente.
    Mas não havia resposta.
    Só eco.

    O silêncio não é neutro.
    O silêncio machuca.
    Ele pesa, ele acusa, ele transforma lembrança em culpa.
    Ele faz a gente duvidar da própria sanidade,
    do próprio valor,
    da própria existência.

    E o mais cruel de tudo
    é que não me deram sequer um fim digno.
    Não me deram a chance de ouvir
    “não quero mais”,
    “não posso”,
    “não consigo”.
    Nada.

    Fui deixada conversando sozinha com fantasmas.
    Fui deixada segurando objetos que perderam o sentido.
    Fui deixada tentando fechar uma história
    que foi arrancada das minhas mãos
    e jogada fora como se nunca tivesse importado.

    Quando vi os restos
    os símbolos,
    as pequenas coisas que um dia significaram cuidado
    sendo descartados sem cerimônia,
    entendi que para você era simples.
    Para mim, era o chão abrindo.
    Porque eu não perdi só você.
    Perdi a versão de mim que existia ao teu lado.
    Perdi o futuro imaginado,
    as conversas que não aconteceram,
    as explicações que nunca vieram.

    O que mais dói
    não é o adeus.
    É a inexistência dele.
    É viver num limbo onde não se é mais nada
    nem presença,
    nem memória,
    nem sequer alguém que mereceu uma última palavra.

    Hoje, o silêncio virou um lugar.
    E eu moro nele.
    Um lugar escuro,
    onde cada dia começa com a mesma pergunta
    que nunca será respondida
    e termina com a certeza amarga
    de que algumas pessoas não vão embora
    elas simplesmente apagam você.
    E deixam você aqui
    tentando respirar
    no escuro
    com o coração cheio de perguntas
    que nunca terão voz.

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