• Inconsistência

    O problema nunca foi a falta de sentimento.

    Se fosse, seria fácil.

    Frio é simples.
    Ausência é clara.
    Indiferença não confunde.

    O problema… é quando tem.

    Quando tem beijo.
    Tem mensagem.
    Tem olhar que demora mais do que deveria.
    Tem presença suficiente pra acender —
    mas nunca o bastante pra sustentar.

    A inconsistência é cruel porque ela não te nega completamente.

    Ela te dá.

    Só não dá sempre.

    E isso é pior.

    Porque você não vai embora de algo que nunca existiu.
    Você vai embora daquilo que quase é.

    E o “quase” vicia.

    Quase me escolhe.
    Quase me assume.
    Quase me prioriza.
    Quase fica.

    E nesse quase… você vai ficando também.

    Vai relevando.

    “Hoje ele tá estranho.”
    “Deve estar cansado.”
    “Não é nada demais.”

    Você começa a traduzir silêncio como cansaço,
    falta de consideração como distração,
    e ausência como circunstância.

    Tudo pra não ter que encarar o óbvio:

    não é que ele não pode.

    É que ele não quer o suficiente.

    Mas a inconsistência sabe ser bonita quando quer.

    Sabe chegar no momento certo,
    falar o que você precisava ouvir,
    te abraçar do jeito que ninguém mais abraça.

    E pronto.

    Você esquece.

    Esquece do sumiço,
    das promessas vazias,
    das conversas pela metade.

    Porque quando ele tá ali… parece real.

    E talvez até seja.

    Só não é constante.

    E o problema é que coração não vive de pico.

    Não vive de exceção.

    Não vive de “quando dá”.

    Coração precisa de continuidade.

    De presença que não dependa de humor,
    de vontade,
    ou de conveniência.

    Mas a gente insiste.

    Insiste porque viu potencial.
    Porque sentiu algo forte.
    Porque acredita que, com um pouco mais de tempo,
    um pouco mais de paciência,
    um pouco mais de amor…

    vai encaixar.

    Spoiler cruel: não encaixa.

    Porque relacionamento não se constrói com intensidade isolada.

    Se constrói com consistência.

    E isso não se pede.

    Não se ensina.

    Não se implora.

    Ou a pessoa é…
    ou ela não é.

    E quando não é,
    não importa o quanto você se ajuste,
    o quanto você entenda,
    o quanto você espere…

    você continua vivendo de migalhas emocionais
    com gosto de banquete.

    Até o dia em que cansa.

    E geralmente cansa.

    Porque uma hora você percebe
    que não tava pedindo demais.

    Tava só pedindo o básico
    pra alguém que nunca teve intenção de dar.

    E aí não é sobre ele.

    É sobre você finalmente entender
    que merecia algo inteiro
    e estava aceitando algo intermitente.

    E intermitência
    nunca foi amor.

    Foi só falta de coragem
    disfarçada de sentimento.

  • O peso de ter o mundo nas mãos

    É uma solidão peculiar e cruel aquela que nos encontra quando, ironicamente, estamos acompanhados.
    Não se trata dos nomes que passaram pela minha vida, dos que vieram, sorriram e, eventualmente, desataram os nós. Trata-se de mim.
    Porque, no fim das contas, a constante em todas essas equações incompletas fui eu: a pessoa que sempre insistiu um pouco a mais, que esticou a corda até arrebentar, tentando fazer ficar quem já demonstrava, em cada pequeno gesto de ausência, a vontade de partir.

    Dizem que a sabedoria moderna está em “apenas curtir o momento”, mas essa é uma cartilha que eu nunca aprendi a ler.
    Para mim, o afeto nunca foi um lugar de passagem ou uma sala de espera.
    Entrar em uma relação sempre foi um ato de fundação. Bater a primeira estaca, planejar os cômodos.
    Se eu abro as portas da minha vida, da minha intimidade e do meu mundo para alguém, é porque trago na mente o desejo de um futuro.
    Espero, minimamente, que o outro arregace as mangas comigo.
    Que possamos erguer algo concreto, algo que cresça, que tenha teto e propósito.
    Não há erro algum em querer profundidade quando se tem um oceano para oferecer.

    O problema de ser quem sempre constrói é a exaustão que se acumula nos ombros.
    Sou aquela que puxa, que tenta, que se doa e se entrega.
    Aquela que tenta fazer o motor funcionar quando o outro já abandonou o volante.
    E nessa insistência de quem acredita demais no “nós”, a doação se torna um sacrifício unilateral.

    Então, o fim inevitavelmente chega, e ele sempre chega.
    A consequência de ser aquela que entrega o próprio mundo para que a relação funcione é silenciosa e implacável.
    O outro parte. Cruza a porta e leva consigo partes de mim, indo embora com a leveza de quem nunca se comprometeu com o peso da estrutura.

    E eu? Eu fico parada no meio daquilo que tentei construir.
    Fico ali, sozinha, com o mundo inteiro nas mãos. Um mundo vasto, pesado, transbordando de afeto não ancorado, sem saber o que fazer com tudo aquilo que sobrou.
    O outro segue em frente de mãos vazias, e eu fico segurando o peso de um universo que projetei para dois, tentando entender como reconstruir a mim mesma a partir dos escombros de mais uma partida.

  • Entre o que é nosso e o que nunca será

    Começou como começam as coisas que não deveriam começar.
    Sem planejamento, sem promessa, sem espaço e ainda assim, com uma facilidade desconcertante.

    Era pra ser só uma conversa.
    Depois, só um encontro.
    Depois, só um momento.

    E quando vimos, já não cabia mais em “só”.

    Havia algo no jeito como ele olhava,
    como se, por alguns instantes, o mundo parasse de cobrar tanto.
    E havia algo nela também
    uma entrega que não sabia ser pequena, que nunca aprendeu a ser metade.

    Dois adultos, comprometidos, responsáveis…
    e ainda assim, dois fugitivos.
    Não da vida, mas da ausência dentro dela.

    Porque não era falta de tudo.
    Era falta de algo específico.
    Aquele tipo de falta que não grita… mas cansa.

    E então veio o primeiro encontro.
    O segundo.
    As mensagens que ocupavam o dia inteiro como se o resto fosse intervalo.

    E veio também o susto.

    Porque não era mais só desejo.
    Era presença.
    Era pensamento recorrente.
    Era vontade de ficar… mesmo sabendo que não podia.

    Eles aprenderam rápido a falar em códigos.
    A esconder o que sentiam atrás de risos, ironias e horários improváveis.
    Aprenderam a existir nos espaços onde ninguém vê e talvez por isso mesmo, ali tudo parecia mais intenso.

    Mas intensidade nunca foi sinônimo de segurança.

    Ele dizia que estava preso onde estava.
    Ela dizia que queria consertar o que tinha.
    E, no meio disso, construíam algo que não cabia em nenhuma das duas realidades.

    Era bonito.
    E era errado.
    E era real.

    Tão real que assustava.

    Houve ausência.
    Houve testes.
    Houve silêncio.

    E ainda assim… havia retorno.

    Porque quando se encontravam no olhar, na conversa, no toque
    tudo parecia fazer sentido de novo.

    Mesmo não fazendo.

    Ela sabia do lugar dela.
    Ele também.
    Mas saber nunca impediu ninguém de sentir.

    E talvez esse seja o maior risco de histórias assim:
    não é o começo…
    é a continuidade.

    Porque não há planos possíveis,
    não há promessas seguras,
    não há garantias.

    Só há o agora.

    E o agora, quando é bom,
    engana.

    Faz parecer suficiente.
    Faz parecer sustentável.
    Faz parecer que dá pra viver ali, naquele intervalo roubado do mundo.

    Mas toda história que vive escondida
    cobra um preço à luz do dia.

    E no fundo, bem no fundo,
    os dois sabem.

    Sabem que isso não é construção.
    É travessia.

    Sabem que não é destino.
    É pausa.

    Mas mesmo assim… ficam.

    Porque às vezes, entre o que é certo e o que é sentido,
    o coração escolhe o que o mundo não sustenta.

    E chama isso de vida.

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