• Uma peça que ninguém viu inteira

    Hoje eu só sinto o peso de ser menos. De ser quase. De ser nunca o suficiente.
    Hoje eu me olho no espelho e vejo o rastro do que sobrou depois de tanto dar, tanto amar, tanto esperar.

    Cansei de ser a peça que só serve quando falta alguém.
    Cansei de ser uma presença confortável, mas invisível.
    A que escuta, a que cuida, a que corre atrás.
    A que segura o mundo dos outros enquanto o próprio desaba em silêncio.

    Hoje eu me pergunto:
    Em que momento deixei que me tratassem como descartável?
    Em que parte do caminho aceitei migalhas achando que era banquete?

    Eu fui amor onde só pediram companhia.
    Fui presença onde só queriam silêncio.
    Fui abraço onde só havia distância.

    E mesmo assim, cá estou eu. Tentando entender por que dói tanto.
    Tentando sufocar o choro só pra não parecer fraca.
    Tentando não mandar mais uma mensagem, não implorar mais uma vez pra ser vista.

    Mas a verdade é que, por dentro, estou gritando.
    Porque eu queria ser escolhida.
    Porque eu merecia ser escolhida.
    Porque o que eu dei foi de verdade.
    E mesmo assim, fui só uma peça no tabuleiro. Uma que caiu. Uma que ninguém sentiu falta.

    Hoje eu entendo:
    Não é que eu seja pouco.
    É que tem gente que nunca soube lidar com tanto.

    E por mais que doa…
    É hora de juntar os cacos,
    e, mesmo ferida, começar a me refazer.

  • O último turno

    Amanheceu e, mais uma vez, ele não veio.

    Nem uma mensagem, nem um sinal de que ainda existe um fio de afeto puxando do outro lado.

    E, no fundo, eu sabia.

    Depois da última conversa, depois do meu adeus, depois de pedir com os olhos uma chance e receber de volta o silêncio duro de quem já partiu por dentro, eu sabia.

    Amanhã vou vê-lo de novo. Lá, sentado na sala com aquela roupa que eu costurei com amor de quem sonhou demais.

    Vai ser como encarar um fantasma, como ver meu coração vestido nele e saber que já não me pertence.

    Ele vai passar por mim, talvez me dê um bom dia sem alma, talvez me evite o olhar e eu vou fingir que estou inteira.

    Vou segurar as lágrimas entre um momento e outro, apertar os dentes pra não tremer a voz, sorrir pras pessoas enquanto por dentro o mundo implode.

    Porque ele vai embora. E com ele, vai a última chance de uma história que só eu quis escrever.

    No fim, o que dói não é só a ausência dele. É o espaço que ele ocupou em mim. É o peso de saber que mesmo tendo dado tudo, mesmo tendo sido a torre mais leal nesse jogo, ele nunca quis segurar minha mão de verdade. Que eu me culpo por soltar a dele, mesmo sabendo que ela esteve sozinha o tempo todo.

    Vai ser mais um dia em que voltarei pra casa com os olhos úmidos e o peito em ruínas, mas talvez, só talvez, seja também o primeiro passo pra me reconstruir.

    E isso hoje é necessário.

  • Xeque-mate

    No tabuleiro da vida,

    a torre tombou silenciosa.

    O rei, agora exposto, não teve tempo de reagir

    Não houve glória, nem honra,

    só o fim inevitável.

    Xeque-mate.

    O jogo acabou… e o coração,

    mais uma vez, perdeu.

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