• Espelho Turvo

    Hoje eu me olhei e não me reconheci.
    Era o mesmo corpo, a mesma pele, o mesmo rosto… mas eu não estava mais ali.
    Só um cansaço pesado, uma tristeza funda que não cabe em lugar nenhum, nem no peito, nem nas lágrimas, nem nas palavras.

    Parei diante do espelho e senti nojo de mim.
    Não por vaidade, mas por não conseguir ser quem eu queria, por não ser o tipo de mulher que ele deseja.
    Olhei as outras tão “certas” e me senti um erro.
    Uma aberração tentando se encaixar num molde que nunca foi feito pra mim.
    Hoje, mais do que nunca, eu me senti invisível.
    E o pior é que ninguém percebeu.

    Passei o dia sorrindo pra não incomodar.
    Falando besteiras pra disfarçar o silêncio que me sufoca.
    Fingindo que estou ocupada, quando, na verdade, só estou tentando não desabar.
    Porque se eu parar, se eu deixar cair a máscara, eu sei que não volto.

    Ele não falou mais comigo.
    E, por mais que eu diga que é o certo, que o silêncio é o que me protege, eu esperei.
    Esperei a mensagem, a ligação, qualquer sinal.
    Mas o telefone ficou mudo, e o vazio fez mais barulho do que tudo.

    Eu sei que amanhã ele talvez ligue, bêbado, confuso, precisando de mim como sempre.
    E eu sei que, mesmo com o peito em carne viva, eu vou querer atender.
    Porque parte de mim ainda acredita que dessa vez vai ser diferente.
    Mas nunca é.

    Hoje eu entendi que o amor que eu sinto é uma ferida aberta.
    E que ele mesmo sem querer continua colocando sal.
    Eu continuo tentando curar o que ele destrói.
    E no fim, sou eu quem sangra sozinha.

    Queria que ele me visse como eu vejo ele.
    Queria que ele soubesse o quanto dói ser chamada de amiga quando o coração implora pra ser amor.
    Mas ele nunca vai entender.
    Pra ele, o que eu sinto é exagero, é futilidade, é fraqueza.
    E pra mim… é tudo o que eu tenho.

    Hoje, eu chorei escondida no banheiro.
    Pra ninguém ver, pra ninguém perguntar.
    E ali, entre o azulejo frio e o som abafado do choro, eu percebi:
    eu não sei mais quem sou sem ele.
    E isso me apavora.

    Porque talvez o amor não tenha me salvado.
    Talvez o amor, dessa vez, tenha me apagado.

  • A chave, o parafuso e eu

    Depois de um grande silêncio que gritava em minha mente, ele me ligou,
    ligou pra perguntar que chave devia usar pra soltar um parafuso.
    Era só isso.
    Entre tantas coisas que já fiz por ele, tantas conversas, tantas noites acordada, tantas lágrimas contidas, hoje a dúvida era sobre uma ferramenta. Uma simples chave de boca.

    E eu ali, do outro lado, ouvindo aquela pergunta prática, banal, sabendo que o problema não era o parafuso, nem a caixa de ferramentas.
    Era ele.
    Era o mesmo impulso que o faz desmontar tudo o que eu faço, como se meu toque fosse sempre duvidoso, como se minha entrega precisasse ser revista, conferida, desfeita.

    Ele vai até lá, tira o que eu fiz, desmonta o certo, perde tempo, se irrita, se enrola.
    E no final vai descobrir, de novo, que eu tinha feito tudo certo.
    Mas nunca vai admitir.

    Porque o problema nunca foi o encaixe do parafuso.
    O problema é o encaixe de nós dois.
    Ele precisa provar pra si mesmo que eu erro, que eu não sei tanto, que o mundo ainda está sob o controle dele.
    Ele desmonta o que eu construo pra se sentir inteiro.
    Mas o que ele não percebe é que, enquanto tenta encontrar um defeito nas minhas mãos,
    ele vai perdendo o pouco que ainda resta das dele.

    E eu fico aqui, parada, olhando pra esse mesmo ciclo se repetir.
    Ele desmonta, refaz,
    e eu continuo tentando entender o que mais posso fazer pra que ele perceba que não era o parafuso que estava errado,
    era o jeito que ele segurava a chave.

    Eu já fui a ferramenta certa pra tanta coisa.
    Fui o encaixe perfeito de tantos problemas dele.
    Fui o ombro, o ouvido, a paciência e até o silêncio.
    Mas nunca o amor, nunca a escolha.

    No fim, eu sou como aquela peça que ele insiste em ajustar, mesmo já encaixada.
    Ele gira, força, tenta de novo, como se algo ali ainda pudesse melhorar.
    E quanto mais ele força, mais ele estraga o que estava pronto, o que estava certo, o que poderia funcionar.

    Hoje eu entendi.
    Ele não confia no que vem fácil, no que é verdadeiro, no que não dói.
    Ele precisa desmontar pra se sentir necessário.
    E eu, por amor, deixei ele desmontar até o que havia de mim.

    Agora eu me sinto como aquele parafuso, gasto, espremido, sem força pra sustentar.
    Ele vai embora levando a chave, e eu fico aqui,
    no chão do coração,
    tentando não me desfazer por completo.

  • Tão perto de Ti, tão longe de mim

    Sou eu que estou contigo no dia a dia
    nas horas ruins, quando o mundo te pesa nos ombros
    e a vida parece te arrastar pra baixo.
    Sou eu quem tenta segurar junto,
    ou às vezes carregar tudo por você.

    São meus os ouvidos que te escutam
    quando você fala das suas dores, das tuas lutas,
    ou quando despeja em mim a raiva que o mundo te provoca.
    Como se o que eu sentisse fosse culpa.
    Como se o meu erro fosse simplesmente existir.

    Eu não sou a escolhida,
    não pra o amor, nem pra o desejo.
    Pra isso, você sempre escolhe outra.
    Mas sou eu quem fica quando todas as outras vão embora,
    como se de alguma forma eu fizesse parte de algo
    que você nunca admite, mas também nunca solta.

    Você me chama de amiga, de irmã,
    me reduz a um papel seguro, inofensivo,
    enquanto o meu corpo te busca e a minha mente se esgota,
    cada vez mais cansada de tentar caber
    num espaço que nunca foi realmente meu.

    Sou aquela que, quando chega perto demais,
    você expulsa,
    não só da sua casa de paredes,
    mas também da casa de muros altos que existe dentro de você,
    aquela que eu insisto em tentar habitar
    mesmo sabendo que as portas nunca estiveram abertas pra mim.

    Tão perto do toque,
    onde às vezes até você se perde,
    mas nunca assume.
    Prefere me chamar de louca, obcecada,
    pra não ter que admitir que também sentiu algo.

    Tão perto do quase,
    e tão longe do tudo.
    Tão perto de Ti,
    e a cada dia mais longe de mim mesma.

    Corro pra você,
    você corre de mim,
    e o tempo corre da gente.
    E nessa corrida,
    a gente perde o que poderia ter sido.

    Sou a alma que tenta, que insiste, que cuida.
    Mas que é sempre resumida
    à única coisa que falta.

    E essa falta…
    essa falta é o que mais me destrói.

    Porque no fundo eu sei:
    nada nunca vai acontecer.
    Não porque não poderia,
    mas porque você não quer.

Categorias


Pesquisar