• O que não se diz

    Ele disse que não sente nada.
    Disse com a calma de quem arranca um coração e observa o sangue cair sem se sujar.
    Falou que tudo era invenção da minha cabeça, como se o amor fosse delírio e não ferida aberta.
    Como se eu tivesse escolhido sangrar.

    Mas eu senti.
    E sentir foi o erro mais humano que cometi.
    Enquanto ele media palavras, eu me entregava inteira.
    Enquanto ele levantava muros, eu me despia de todas as defesas pra que ele visse quem eu era e ainda assim ele virou o rosto.

    Ele sempre quis o controle.
    Quis que eu fosse menos, pra ele ser mais.
    Quis me moldar, me silenciar, me ensinar a não sentir.
    Mas eu nunca aprendi.
    E talvez seja por isso que ele me chamou de louca, dramática, adolescente.
    Porque amar com verdade assusta quem só conhece o cálculo.

    Agora ele deve estar lá, se distraindo com alguém “que vale a pena”,
    tentando preencher o vazio com novidade, como quem tapa um buraco com fumaça.
    Mas o que eu dei, valor, não preço, não se repete.
    Nenhuma substituta compra o que nasceu da alma.

    E quando o eco da solidão bater forte entre os muros dele,
    talvez lembre de mim.
    Da mulher que ficou quando todos se cansaram.
    Da que o segurou mesmo quando ele empurrou.
    Mas vai ser tarde.

    Porque o amor, quando morre de tanto apanhar,
    vira cinza.
    E a cinza, não volta a ser fogo.

  • Espelho Turvo

    Hoje eu me olhei e não me reconheci.
    Era o mesmo corpo, a mesma pele, o mesmo rosto… mas eu não estava mais ali.
    Só um cansaço pesado, uma tristeza funda que não cabe em lugar nenhum, nem no peito, nem nas lágrimas, nem nas palavras.

    Parei diante do espelho e senti nojo de mim.
    Não por vaidade, mas por não conseguir ser quem eu queria, por não ser o tipo de mulher que ele deseja.
    Olhei as outras tão “certas” e me senti um erro.
    Uma aberração tentando se encaixar num molde que nunca foi feito pra mim.
    Hoje, mais do que nunca, eu me senti invisível.
    E o pior é que ninguém percebeu.

    Passei o dia sorrindo pra não incomodar.
    Falando besteiras pra disfarçar o silêncio que me sufoca.
    Fingindo que estou ocupada, quando, na verdade, só estou tentando não desabar.
    Porque se eu parar, se eu deixar cair a máscara, eu sei que não volto.

    Ele não falou mais comigo.
    E, por mais que eu diga que é o certo, que o silêncio é o que me protege, eu esperei.
    Esperei a mensagem, a ligação, qualquer sinal.
    Mas o telefone ficou mudo, e o vazio fez mais barulho do que tudo.

    Eu sei que amanhã ele talvez ligue, bêbado, confuso, precisando de mim como sempre.
    E eu sei que, mesmo com o peito em carne viva, eu vou querer atender.
    Porque parte de mim ainda acredita que dessa vez vai ser diferente.
    Mas nunca é.

    Hoje eu entendi que o amor que eu sinto é uma ferida aberta.
    E que ele mesmo sem querer continua colocando sal.
    Eu continuo tentando curar o que ele destrói.
    E no fim, sou eu quem sangra sozinha.

    Queria que ele me visse como eu vejo ele.
    Queria que ele soubesse o quanto dói ser chamada de amiga quando o coração implora pra ser amor.
    Mas ele nunca vai entender.
    Pra ele, o que eu sinto é exagero, é futilidade, é fraqueza.
    E pra mim… é tudo o que eu tenho.

    Hoje, eu chorei escondida no banheiro.
    Pra ninguém ver, pra ninguém perguntar.
    E ali, entre o azulejo frio e o som abafado do choro, eu percebi:
    eu não sei mais quem sou sem ele.
    E isso me apavora.

    Porque talvez o amor não tenha me salvado.
    Talvez o amor, dessa vez, tenha me apagado.

  • A chave, o parafuso e eu

    Depois de um grande silêncio que gritava em minha mente, ele me ligou,
    ligou pra perguntar que chave devia usar pra soltar um parafuso.
    Era só isso.
    Entre tantas coisas que já fiz por ele, tantas conversas, tantas noites acordada, tantas lágrimas contidas, hoje a dúvida era sobre uma ferramenta. Uma simples chave de boca.

    E eu ali, do outro lado, ouvindo aquela pergunta prática, banal, sabendo que o problema não era o parafuso, nem a caixa de ferramentas.
    Era ele.
    Era o mesmo impulso que o faz desmontar tudo o que eu faço, como se meu toque fosse sempre duvidoso, como se minha entrega precisasse ser revista, conferida, desfeita.

    Ele vai até lá, tira o que eu fiz, desmonta o certo, perde tempo, se irrita, se enrola.
    E no final vai descobrir, de novo, que eu tinha feito tudo certo.
    Mas nunca vai admitir.

    Porque o problema nunca foi o encaixe do parafuso.
    O problema é o encaixe de nós dois.
    Ele precisa provar pra si mesmo que eu erro, que eu não sei tanto, que o mundo ainda está sob o controle dele.
    Ele desmonta o que eu construo pra se sentir inteiro.
    Mas o que ele não percebe é que, enquanto tenta encontrar um defeito nas minhas mãos,
    ele vai perdendo o pouco que ainda resta das dele.

    E eu fico aqui, parada, olhando pra esse mesmo ciclo se repetir.
    Ele desmonta, refaz,
    e eu continuo tentando entender o que mais posso fazer pra que ele perceba que não era o parafuso que estava errado,
    era o jeito que ele segurava a chave.

    Eu já fui a ferramenta certa pra tanta coisa.
    Fui o encaixe perfeito de tantos problemas dele.
    Fui o ombro, o ouvido, a paciência e até o silêncio.
    Mas nunca o amor, nunca a escolha.

    No fim, eu sou como aquela peça que ele insiste em ajustar, mesmo já encaixada.
    Ele gira, força, tenta de novo, como se algo ali ainda pudesse melhorar.
    E quanto mais ele força, mais ele estraga o que estava pronto, o que estava certo, o que poderia funcionar.

    Hoje eu entendi.
    Ele não confia no que vem fácil, no que é verdadeiro, no que não dói.
    Ele precisa desmontar pra se sentir necessário.
    E eu, por amor, deixei ele desmontar até o que havia de mim.

    Agora eu me sinto como aquele parafuso, gasto, espremido, sem força pra sustentar.
    Ele vai embora levando a chave, e eu fico aqui,
    no chão do coração,
    tentando não me desfazer por completo.

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