Lá está ele.
Dobrado com cuidado, como se cada dobra guardasse um pouco do que não se diz.
Lá está ele, limpo por fora, mas ainda impregnado do cheiro dele, maldito cheiro que me confunde, me invade, me acalma e me destrói.
Carrego ele como quem carrega uma esperança.
Como se fosse possível, por um segundo, enganar a ausência.
Como se, ao devolvê-lo, ele também devolvesse um olhar mais longo, um gesto menos contido, um abraço que, enfim, me fizesse parar de tremer por dentro.
Eu sei que ele nem percebe o quanto esse pedaço de pano me dilacera.
Mas é ali, na costura do ombro, no vinco da manga, que repousa tudo o que eu ainda queria dizer.
Eu cuidei dele. Eu lavei com carinho.
Eu costurei os botões com delicadeza.
Eu amarrei um pedaço do meu coração na linha da barra.
Hoje, quando eu o entregar, ninguém vai ver.
Mas vai ser como devolver um pedaço de mim.
E ele nunca vai saber disso.
