Receitas azuis

Hoje é um dia importante. E eu tô com medo. Muito medo.

Depois de anos caminhando em linha reta, estou prestes a dar um passo para trás ou talvez seja a vida que está me puxando de volta, como uma máquina do tempo desgovernada, para um passado escuro que eu jurei ter deixado pra trás.

É estranho estar aqui de novo.
Me sinto como um cachorro ferido, voltando pra corrente que por tanto tempo me prendeu. Eu pensei que nunca mais precisaria disso.
Achei que tinha vencido. Mas talvez ainda não.

Talvez ainda leve um bom tempo até eu conseguir, de verdade, olhar pra frente sem medo de desabar.

Daqui a pouco, vou entrar naquela sala branca. A mesma. A do psiquiatra.
E já sei como vai ser: sairei com receitas azuis nas mãos e o rosto inchado de tanto chorar.
E depois… depois vem o vazio. A calmaria forçada.
O silêncio no lugar daquele barulho ensurdecedor que vive dentro de mim.

Mas, por mais estranho que pareça, isso não me alivia. Isso me assusta.

Me sinto como um bicho selvagem, perigoso, que precisa ser sedado, controlado, acorrentado, pra que ninguém mais se machuque. Nem eu.

E mais uma vez… eu tento.
De novo.

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