Há dores que não gritam, apenas se instalam.
Entram devagar, como quem pede licença,
e quando percebemos
já arrastaram móveis, já trocaram as fechaduras,
já moram dentro da gente.
A minha se instalou no peito.
É uma sombra silenciosa,
daquelas que não precisam de noite para existir.
Ela vive em mim em pleno dia,
pendurada nas minhas costelas
como um animal que não larga o osso.
Hoje acordei com ela.
Ou talvez tenha dormido com ela,
já não sei onde termina um dia e começa o outro,
quando a dor é o relógio que marca minhas horas.
É um peso:
um planeta morto,
um coração ferido que lateja em surdina,
como se cada lembrança batesse a porta por dentro
pedindo para ser ouvida.
Dói porque eu acreditei.
Dói porque esperei.
Dói porque coloquei mundos inteiros
nas mãos de quem não soube sequer segurar
o que eu era por dentro.
Há amores que não abraçam,
apenas consomem.
São labaredas frias, queimam sem luz.
São tempestades sem água, molham só por dentro.
E a gente vai ficando assim,
meio quebrada, meio oca,
com um vazio que faz eco quando pensamos demais.
Tudo em mim hoje é eco.
Eco do que eu dei,
do que eu queria,
do que nunca recebi de volta.
A saudade não é só dele
é da versão de mim que existia antes dele.
Aquela que acreditava,
que esperava ser cuidada,
que ainda tinha fôlego para recomeçar sem tremor.
Agora, no silêncio deste quarto estrangeiro,
percebo que o mundo não quebra a gente de uma vez.
Ele lasca devagar,
como a madeira que range antes de partir,
como o peito que aperta antes de ruir.
E mesmo assim,
entre o resto de mim que ainda pulsa,
algo sussurra baixinho:
Vai passar.
Não porque deixa de doer,
mas porque uma hora a gente cansa de sangrar.
