Quem vê de fora, jura.
Jura que somos um casal.
Pela forma como ele encosta em mim quando fala baixinho,
pela forma como meu corpo se inclina sem perceber, como se já tivesse decorado o espaço exato onde ele termina e eu começo.
Pelas piadas internas, pelos olhares que duram um segundo a mais, pelos silêncios que não incomodam, só dizem.
Mas não somos.
Tem tudo pra ser.
Só que não é.
Tem toque.
Tem cheiro.
Tem cuidado.
Tem saudade quando ele sai da sala por cinco minutos e eu fico olhando pro nada, esperando qualquer desculpa pra puxar assunto de novo.
Tem vontade de dizer “fica”, mas o “fica” morre na garganta e renasce em um “beleza então”.
Tem abraço preso na pele, riso preso no peito, beijo preso na boca.
Tudo amarrado com a fita do que não pode, do que não deve, do que não vai acontecer.
Ele diz que tem medo.
Medo de mim.
Como se o perigo estivesse na mulher que só quis estar.
E eu entendo, mas dói.
Dói saber que eu sou o lugar onde ele confia, mas não repousa.
Sou a presença constante, mas não escolhida.
Sou o plano de fundo da vida dele, uma música boa demais pra tocar só no elevador.
E a gente vive assim.
Entre sorrisos contidos, mãos que quase se encontram, ombros que se tocam por acidente e corações que gritam atrás dos olhos.
A cumplicidade é tanta que, às vezes, me esqueço que não sou dele.
Só lembro quando ele volta pra realidade e me diz, com palavras bem escolhidas que não.
Como se o sentimento fosse um erro.
Como se amar fosse algo sujo.
Mas não é.
A gente só sente.
E sentir, nesse caso, é um verbo solitário.
Eu sigo aqui, me encolhendo pra caber no espaço que ele me dá.
Reduzindo o que é imenso dentro de mim só pra não assustar o que ele não sabe lidar.
E talvez o mais cruel de tudo…
é que tem tudo pra ser.
Deus, tem tudo.
Mas… não é.
E talvez nunca seja.
