• Duas em Mim

    Vim em duas estações:
    primeiro, a menina
    tremendo nas bases do mundo,
    um suspiro que se lançou sem medo
    no teu primeiro abraço.

    Caiu, despedaçou-se em cartas não enviadas,
    chorou as luas inteiras,
    aprendeu que o amor podia doer.

    Depois nasceu a mulher
    passos firmes, mãos de ponte,
    aquela que entrou por detrás dos muros,
    que conheceu tuas guerras e sentou à tua sombra.
    Ela não fugiu dos teus demônios;
    aprendeu a segurar tuas mãos quando caias,
    a ficar quando ninguém mais fica.

    A menina ainda ruge às vezes, impulsiva, urgente
    mas já não manda sozinha.
    A mulher ergue-se como torre,
    guardiã de um carinho que não pede nada em troca,
    amando em silêncio, resistente, inteiro.

    E se me perguntares: o que é isso?
    Eu digo: é amor
    não a pressa de um beijo,
    mas o espaço calmo de quem escolhe ficar.
    Duas em mim, em trégua e em marcha,
    aprendendo a viver no mesmo peito.

  • Adeus ao que nunca foi

    A coisa mais difícil que farei
    é recolher meus passos de volta,
    me afastar de você,
    mesmo quando tudo em mim
    queria ficar.

    Dói demais estar perto,
    sentir sua respiração
    quase tocando a minha,
    e ter de segurar o impulso
    de querer seus beijos,
    quando sei que jamais serão meus.

    Pra você é pouco, talvez nada.
    Pra mim é um universo que transborda,
    um peso que aperta o peito
    até explodir em silêncio.

    Quantas vezes pedi a Deus
    que arrancasse esse amor,
    que me deixasse caber
    na moldura da amizade
    que você me oferece.
    Mas quanto mais tento me encolher,
    mais me dói existir assim.

    Quisera eu ser só amiga,
    a amiga que você merece.
    Mas amar teima em não caber
    no espaço que me resta.

    Por isso digo adeus,
    mesmo querendo ficar.
    Peço ao universo que te cubra de amor,
    aquele que carrego como fardo
    e nunca pude te dar.

    E eu, de longe,
    serei apenas silêncio e saudade,
    me alegrando com teu sorriso
    mesmo que nunca mais seja meu.

    Adeus, meu menino,
    que nunca foi meu,
    mas ocupou todo o espaço
    do meu coração.

  • Ambiguidade

    Tão ambíguo é o que temos,
    um quase-amor escondido nas frestas,
    um abraço que promete eternidade
    mas se desfaz no instante seguinte.

    Cheio de duplos sentidos,
    palavras que brincam com a esperança,
    olhares que me elevam ao céu
    e depois me jogam no chão do silêncio.

    Você me chama e me afasta,
    me prende e me solta,
    me dá migalhas de um paraíso
    e castigos de um deserto sem fim.

    E eu, perdida em você,
    me entrego mesmo sem poder,
    construo castelos que nunca habitarei,
    planto flores em jardins onde não posso entrar.

    Tão ambíguo é o que temos…
    tão claro no meu peito,
    tão nítido em seus olhos,
    tão negado nos seus lábios.
    E ainda assim, eu fico
    por amor, por dor, por ódio,
    por tudo que nunca seremos.

    Tão ambíguo quanto o que “temos”…
    Cheio de duplos sentidos que não fazem sentido algum…

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