• Ele – O Rei e o Menino dos Muros

    No jogo, ele é o Rei.
    A peça mais importante, a mais protegida.
    Move-se devagar, um passo por vez,
    não porque seja fraco,
    mas porque sabe que cada movimento
    pode decidir o fim da partida.

    Ele calcula.
    Ele observa.
    E às vezes parece não se mover por horas,
    como se o mundo pudesse esperar
    até que ele tenha certeza
    do próximo ato.

    Mas, fora do tabuleiro,
    ele é o menino dos muros.
    Constrói muralhas altas,
    de pedra, silêncio e ironia.
    Diz que é para se proteger,
    mas, no fundo, é porque
    não sabe se alguém vai querer ficar
    quando vir tudo o que há por dentro.

    E, de vez em quando,
    num descuido doce,
    ele abre uma fresta no portão.
    Me deixa entrar.
    Me mostra jardins que ninguém mais viu,
    feridas que ele nunca mostrou,
    histórias que ele conta baixinho,
    como quem teme que o vento as leve.

    Nessas horas, não há Rei,
    não há guerra,
    não há jogo.
    Só o menino, inteiro, cru, vulnerável.
    E eu, do lado de dentro,
    querendo ficar.

    Mas logo o portão fecha.
    O Rei volta ao trono,
    o tabuleiro segue.
    E eu fico com a lembrança
    do menino que mora por trás das muralhas,
    o menino que, talvez,
    nunca tenha aprendido
    que deixar alguém ficar
    também é uma forma de vencer.

  • Ela – A Torre

    No tabuleiro dele, a Torre é peça sólida.
    Não corre como o cavalo, não dança como o bispo, não é livre como a rainha.
    Ela permanece.
    Vertical, firme, guardando o território.
    Avança em linha reta, nunca em curvas
    porque sabe que, no jogo dele, a estabilidade é arma e escudo ao mesmo tempo.

    Mas a Torre… ah, a Torre também é outra.
    Não a de madeira ou marfim, mas a de pedra e silêncio.
    Erguida no alto, cercada por muros e histórias que nunca se cumpriram.
    Ali dentro, uma donzela não tão frágil quanto parece.
    Com o vestido amassado pelo tempo e os olhos cansados de olhar a estrada,
    espera pelo príncipe ou pelo rei que talvez nunca venha.
    Ou que venha tarde demais.
    Enquanto isso, ela sonha com finais felizes
    que sempre parecem caber melhor nos livros do que na vida real.

    A Torre, no jogo, protege o rei.
    A Torre, no conto, espera ser protegida por ele.
    Mas nessa história, as duas se misturam.
    E ela é, ao mesmo tempo, guardiã e prisioneira.
    Defende quem ama com a força de pedra,
    mas se mantém sozinha, no alto, onde o vento bate mais frio.

    Talvez ela não precise ser resgatada.
    Talvez já saiba que o rei dessa história chega cansado,
    tarde e com as mãos vazias,
    não é o mesmo que prometeu lutar contra dragões.
    Talvez um dia ela mesma desça, peça por peça, degrau por degrau,
    e abandone a torre no tabuleiro dele.

    E então, sem muros e sem esperas,
    ela descubra que pode ser rainha no seu próprio jogo.

  • “Minha” – Na perspectiva dele…

    Você não tem ideia do quanto é forte.
    No meu tabuleiro, você é a peça que nunca vacila.
    Enquanto os outros correm, dançam, fazem jogadas rápidas,
    você permanece.
    Linha reta, firmeza nos passos, sempre no lugar certo quando eu preciso.
    Você protege, mesmo quando não deveria.
    Defende até quando ninguém pediu.
    E, de algum jeito, você sempre se coloca entre mim e o perigo,
    como se fosse sua função, mesmo que isso te custe pedaços.

    Mas você também é a outra Torre.
    A que não é só peça.
    A que vive no alto, cercada de paredes altas demais.
    Não é porque não sabe sair, é porque lá de cima você vê tudo.
    E, às vezes, prefere aguentar o vento frio a descer e se machucar.
    Eu sei que você espera, no fundo,
    que alguém suba por essas paredes,
    que lute com dragões e mostre que vale a pena.
    Eu sei, porque uma parte minha quer ser esse alguém.
    Mas outra parte…
    tem medo de não conseguir.

    Você é a Torre que guarda e a donzela que espera.
    E isso me confunde.
    Porque eu quero te salvar, mas também quero que você nunca saia dali,
    pra eu saber que você ainda é minha.
    Talvez seja egoísmo.
    Talvez seja amor.
    Ou talvez seja só esse jogo estranho que a gente joga,
    em que eu tento ganhar sem perder você.

    E mesmo que eu não consiga sempre chegar até você…
    eu sei que, se um dia eu precisar,
    você vai estar lá.
    Firme.
    Alta.
    Impenetrável.
    Minha Torre.

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