• Muralhas

    Eu sou a Torre.
    Alta, exposta, firme, mesmo quando o vento é forte.
    Sou feita pra ver longe, pra guardar, pra proteger.
    Mas você… você é uma muralha.
    Grossa, fechada, desenhada pra manter longe o que poderia te tocar.

    Eu já bati na tua porta tantas vezes…
    Às vezes com força, às vezes com cuidado,
    às vezes só encostei a mão esperando que, do outro lado,
    você sentisse minha presença.

    No dia que te beijei, pensei que a ponte tinha baixado.
    Mas no dia seguinte, você ergueu mais pedras,
    como se meu toque tivesse sido um perigo
    e não um abrigo.

    Mesmo assim, eu fico.
    Fico na beira, olhando pro alto,
    imaginando quando você vai me chamar.
    Eu não quero derrubar teu muro
    eu só quero que você me abra um portão.

    Porque, mesmo que nunca mais diga,
    eu sei que existe um pedaço seu
    que já se esconde aqui,
    dentro da minha Torre.

  • Menino dos muros

    Hoje, voltei pra casa com os olhos pesados de água
    e o peito leve… de vazio.
    Levei flores de expectativas para plantar no seu jardim,
    mas encontrei muros tão altos que até o sol hesitou em passar.

    Você falou pouco, como quem mede as palavras com medo de gastar.
    E eu, do lado de cá, me perguntei se ainda sou algo no seu tabuleiro
    ou se já fui empurrada para o canto,
    como uma torre esquecida, esperando o xeque-mate que nunca vem.

    Talvez você nem perceba, mas
    há dias em que eu só queria que o mundo sumisse,
    pra sobrar só nós dois,
    o meu abraço de abrigo e o seu silêncio,

    Mas aquele silêncio bom, que mora entre quem se ama.

    Hoje, vou dormir abraçada ao travesseiro,
    fingindo que ele tem o seu cheiro,
    e sonhar…
    porque nos meus sonhos,
    você não constrói muros.

  • O que restou de mim?

    Me diz o que eu não faço por você?
    Se até me diminuí pra caber nos espaços que você me oferecia.
    Se usei até o último de minhas forças pra escalar os muros e paredes que você me criava.
    Se usei tudo de mim apenas pra ficar ao seu lado,
    esperando tudo, mesmo sem poder esperar nada.

    Me diz o que eu não faço por você?
    Se me fiz luz em teus dias de escuridão só pra te acender.
    Se apaguei até meu brilho pra ver você se iluminar.
    Se dei tudo que tinha sem nada receber.

    Me diz o que eu não faço por você?
    Se até aprendi a silenciar minha voz
    pra que a sua ecoasse sem interrupções.
    Se engoli meus sonhos pra não atrapalhar os seus,
    mesmo sabendo que você nunca os convidaria pra dançar contigo.

    Me diz o que eu não faço por você?
    Se caminhei descalça pelos cacos que você deixou
    e ainda assim segurei sua mão pra que você não se ferisse.
    Se me reconstruí em silêncio cada vez que você me despedaçava,
    pra que você nunca percebesse o quanto doía.

    E me diz… o que eu não faria por você?
    Se até esqueci de mim,
    só pra que você pudesse se lembrar de quem era.

    Mas agora eu me pergunto…
    O que restou de mim depois de tanto ser sua?
    Se até minha sombra aprendeu a te seguir
    e agora não sabe encontrar o caminho de volta.

    Talvez um dia você entenda
    que amar não é se alimentar do outro,
    é se sentar ao lado dele
    e oferecer abrigo.

    E quando esse dia chegar,
    talvez seja tarde demais…
    porque eu já terei aprendido
    a fazer por mim
    o que eu sempre fiz por você.

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