• Lágrimas de amor – Pelo coração dela.

    Não era uma ligação de trabalho. Não era para resolver nada, nem para discutir.
    Era ele. Só ele.
    O meu menino, do outro lado da linha, me chamando e pedindo sem dizer com todas as letras: “cuida de mim?”.

    A voz dele veio carregada de um cansaço que não se cura com sono.
    Entre pausas e tragos de silêncio, ele começou a falar.
    Falou sobre a vida, sobre os pesos que carrega, e então sobre ela, a mulher que, um dia, ele tanto amou.
    A que deveria ter vindo vê-lo. mas desistiu e o motivo:
    “Foi por sua causa, porque você está afim dela”, ele disse que ela falou.

    Engoli seco.
    Não perguntei mais, não pressionei. Mas dentro de mim, um pequeno terremoto começou.
    Se ela disse, é porque viu algo.
    E se ela viu, o que será que ele sente?

    Do outro lado, ele não percebeu minha respiração tremer nem minhas lágrimas que correram.
    Ou percebeu, mas fingiu que não.
    Eu só ouvia o som de alguém que, pela primeira vez, me deixava ver a alma nua, sem as armaduras, sem as paredes.
    E ele chorou.
    Meu menino chorou.

    No fim, quando o silêncio se assentou, eu disse:
    “Se cuida… porque eu te amo.”
    E ele respondeu, sem hesitar:
    “Eu também te amo, muito.”

    Não sei se foi a verdade dele ou apenas um sopro de momento.
    Só sei que naquela hora, naquela ligação, ele foi meu, e eu fui dele.
    E isso… isso ninguém tira.

    Ela…
    A sua Torre.

  • Receitas azuis

    Hoje é um dia importante. E eu tô com medo. Muito medo.

    Depois de anos caminhando em linha reta, estou prestes a dar um passo para trás ou talvez seja a vida que está me puxando de volta, como uma máquina do tempo desgovernada, para um passado escuro que eu jurei ter deixado pra trás.

    É estranho estar aqui de novo.
    Me sinto como um cachorro ferido, voltando pra corrente que por tanto tempo me prendeu. Eu pensei que nunca mais precisaria disso.
    Achei que tinha vencido. Mas talvez ainda não.

    Talvez ainda leve um bom tempo até eu conseguir, de verdade, olhar pra frente sem medo de desabar.

    Daqui a pouco, vou entrar naquela sala branca. A mesma. A do psiquiatra.
    E já sei como vai ser: sairei com receitas azuis nas mãos e o rosto inchado de tanto chorar.
    E depois… depois vem o vazio. A calmaria forçada.
    O silêncio no lugar daquele barulho ensurdecedor que vive dentro de mim.

    Mas, por mais estranho que pareça, isso não me alivia. Isso me assusta.

    Me sinto como um bicho selvagem, perigoso, que precisa ser sedado, controlado, acorrentado, pra que ninguém mais se machuque. Nem eu.

    E mais uma vez… eu tento.
    De novo.

  • E se for verdade?

    Foi no meio do caos.

    No meio do cansaço, da voz áspera e dos olhos embriagados. No meio das palavras afiadas, das mágoas acumuladas, da dor que não cabia mais no corpo. Foi nesse cenário disforme, descompassado, que ele jogou no ar o que deveria ser sagrado: “Eu te amo.”

    Assim. Cru e seco. Sem mãos estendidas. Sem cuidado. Sem colo.

    E eu… eu fiquei ali, estática, tentando recolher os estilhaços de algo que nem chegou a acontecer por completo, mas que, de alguma forma, me marcou como se tivesse sido tudo. Como se fosse o grande amor da minha vida. Como se a gente tivesse vivido uma eternidade inteira em apenas alguns instantes.

    “Eu te amo.”

    Se fosse outro dia, em outro tempo, com outra entrega, talvez fosse a frase que eu sonhei ouvir. Mas naquele instante, do jeito que veio, como um sopro impaciente ou um suspiro entorpecido, aquilo só fez sangrar mais. Porque e se for verdade? E se ele sentiu mesmo, só que nunca soube lidar? E se aquele amor estava ali, encolhido num canto do peito dele, mas encoberto por medo, orgulho, ego, ou dor?

    E se?

    Mas amor, o verdadeiro, não chega quebrado. Não vem cuspido entre ofensas. Não aparece ferido, querendo se curar ferindo o outro. Amor não exige que você rasteje, não te faz implorar, não se esconde atrás do álcool ou da covardia.

    Amor acolhe. Amor permanece.

    E ele… ele não ficou.

    O que ficou foi o luto. Um luto estranho, silencioso, por algo que nunca teve nome, mas teve cheiro, teve pele, teve toque, teve promessa implícita nos olhos e esperanças escondidas em cada momento partilhado.

    Ficou o luto do quase. A dor do talvez. A saudade do que nunca chegou a ser.

    E desde então eu venho enterrando, com cuidado, esse amor que nunca se completou. Um olhar de cada vez. Uma lembrança por dia. Um suspiro cansado, uma lágrima calada, um coração em reabilitação.

    Porque mesmo que ele tenha dito “eu te amo”, todo o restante sempre desmentiu tudo. O desprezo, a frieza, a ausência, foram esses que gritaram mais alto do que qualquer palavra dita entre soluços e álcool.

    E se um dia foi amor… então ele não soube amar.

    Hoje, tento parar de pintar a dor com tintas bonitas. Tento lembrar que quem ama de verdade não te quebra pra depois pedir que você limpe os cacos. Que amor de verdade não precisa ser sobrevivido, precisa ser vivido.

    Agora é comigo. Com o que restou de mim.

    Com o luto de um amor que só existiu dentro de mim, mas que doeu como se fosse de nós dois. E com a esperança de que um dia, num tempo limpo, com outra consciência, você olhe para trás e que eu ainda esteja aqui.

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