• Lágrimas de amor – Pela voz dele:

    “Hoje eu precisei de você.
    Não como colega, não como aquela Torre que segura as pontas quando tudo desaba… mas como a única pessoa que eu sabia que poderia ouvir o peso que eu carregava sem me julgar.
    E você atendeu.

    Eu não sei se você percebeu, mas chorei porque não tinha mais onde guardar tanta coisa. Não é fácil me despir assim na frente de alguém, mas com você foi inevitável talvez porque, de alguma forma, sempre achei que você já enxergasse o que existe por trás de tudo que eu mostro pro mundo.

    Te falei sobre ela… sobre essa história mal resolvida, sobre esse pedaço do meu passado que às vezes ainda sangra. Ela disse que não vem por sua causa, porque eu gosto de você.
    Talvez ela tenha razão, talvez eu já soubesse disso antes mesmo dela dizer, mas confesso: ouvir isso de outra boca me fez pensar.

    E no final, quando você disse “se cuida, porque eu te amo”, eu quis guardar sua voz num lugar onde nem o tempo pudesse tocar. Respondi que também te amo e não foi só um reflexo, foi verdade, mesmo que eu ainda não saiba dar nome ao que sinto.

    Obrigado por ser meu porto, minha pausa, meu abrigo de um dia difícil.
    Talvez você nunca saiba o quanto isso significa.”

    Ele…
    O meu Rei.

  • Lágrimas de amor – Pelo coração dela.

    Não era uma ligação de trabalho. Não era para resolver nada, nem para discutir.
    Era ele. Só ele.
    O meu menino, do outro lado da linha, me chamando e pedindo sem dizer com todas as letras: “cuida de mim?”.

    A voz dele veio carregada de um cansaço que não se cura com sono.
    Entre pausas e tragos de silêncio, ele começou a falar.
    Falou sobre a vida, sobre os pesos que carrega, e então sobre ela, a mulher que, um dia, ele tanto amou.
    A que deveria ter vindo vê-lo. mas desistiu e o motivo:
    “Foi por sua causa, porque você está afim dela”, ele disse que ela falou.

    Engoli seco.
    Não perguntei mais, não pressionei. Mas dentro de mim, um pequeno terremoto começou.
    Se ela disse, é porque viu algo.
    E se ela viu, o que será que ele sente?

    Do outro lado, ele não percebeu minha respiração tremer nem minhas lágrimas que correram.
    Ou percebeu, mas fingiu que não.
    Eu só ouvia o som de alguém que, pela primeira vez, me deixava ver a alma nua, sem as armaduras, sem as paredes.
    E ele chorou.
    Meu menino chorou.

    No fim, quando o silêncio se assentou, eu disse:
    “Se cuida… porque eu te amo.”
    E ele respondeu, sem hesitar:
    “Eu também te amo, muito.”

    Não sei se foi a verdade dele ou apenas um sopro de momento.
    Só sei que naquela hora, naquela ligação, ele foi meu, e eu fui dele.
    E isso… isso ninguém tira.

    Ela…
    A sua Torre.

  • Receitas azuis

    Hoje é um dia importante. E eu tô com medo. Muito medo.

    Depois de anos caminhando em linha reta, estou prestes a dar um passo para trás ou talvez seja a vida que está me puxando de volta, como uma máquina do tempo desgovernada, para um passado escuro que eu jurei ter deixado pra trás.

    É estranho estar aqui de novo.
    Me sinto como um cachorro ferido, voltando pra corrente que por tanto tempo me prendeu. Eu pensei que nunca mais precisaria disso.
    Achei que tinha vencido. Mas talvez ainda não.

    Talvez ainda leve um bom tempo até eu conseguir, de verdade, olhar pra frente sem medo de desabar.

    Daqui a pouco, vou entrar naquela sala branca. A mesma. A do psiquiatra.
    E já sei como vai ser: sairei com receitas azuis nas mãos e o rosto inchado de tanto chorar.
    E depois… depois vem o vazio. A calmaria forçada.
    O silêncio no lugar daquele barulho ensurdecedor que vive dentro de mim.

    Mas, por mais estranho que pareça, isso não me alivia. Isso me assusta.

    Me sinto como um bicho selvagem, perigoso, que precisa ser sedado, controlado, acorrentado, pra que ninguém mais se machuque. Nem eu.

    E mais uma vez… eu tento.
    De novo.

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