• Luto de um Quase Amor

    Existe um tipo de luto que ninguém entende.
    É o luto por algo que nunca chegou a ser, mas que, dentro da gente, já era tudo.
    Um luto silencioso, invisível, desprezado até por quem o causou.
    O luto por um “quase”.

    Quase amor.
    Quase história.
    Quase abraço definitivo.
    Quase um começo bonito que acabou antes de ser escrito.

    Você e eu…
    Nunca fomos oficialmente nada e ainda assim, eu perdi tudo.

    Perdi planos que só existiam na minha cabeça,
    sonhos que eu construí com cada palavra sua,
    com cada gesto que parecia dizer: “fica”.
    Perdi as conversas longas, os sorrisos fáceis, os olhares que eu jurei que diziam mais do que você conseguia dizer.

    Agora me resta esse luto que tem seu nome,
    de algo que não houve fim, só ausência.
    Não houve despedida, só silêncio.
    Não houve morte, mas houve um adeus que doeu mais do que qualquer grito.

    Eu me vejo tentando seguir,
    mas tem um pedaço meu que ainda espera.
    Que ainda acredita que esse “quase” vai voltar e, quem sabe, virar alguma coisa.
    Mas ele não volta.
    E eu preciso aceitar.

    Luto por um amor que não foi e que se foi,
    mas que me tocou como se tivesse sido o maior da minha vida.
    E talvez tenha sido, mesmo sem ter sido nada.

  • A Neve que Cobriu

    Durante muito tempo, eu me vesti de gelo.
    Criei uma armadura feita de frases afiadas, silêncios calculados e sorrisos contidos.
    Elsa, a Rainha da Neve, foi mais que uma personagem pra mim, foi abrigo, escudo, identidade.
    “Forte e fria”, eu dizia, quase como uma oração. Acreditava que bastava não sentir, não mostrar, não deixar ninguém saber.
    Tatuei em mim essas palavras como um lembrete eterno: não se entrega, não se permite, não se quebra.

    E assim eu fui vivendo… Ou pelo menos fingindo que vivia.
    Atrás do gelo, havia um vulcão em erupção silenciosa.
    Enquanto o mundo me via inteira, por dentro eu desmoronava aos poucos, mas sem deixar cair.
    Até que um dia esqueci a armadura em casa.

    Esqueci que deveria ser de gelo.
    Esqueci de repetir minhas frases protetoras.
    E foi aí que ele apareceu.
    Com olhos que diziam mais do que deviam e um jeito de menino perdido, ele atravessou meu gelo como se fosse brisa.

    Fez meu peito tremer, minha respiração falhar, meu lema virar pó.
    E eu, que por anos fui muralha, me tornei vulnerável.
    A armadura rachou.
    O gelo derreteu.

    E no reflexo da água eu me vi: uma mulher cheia de amor, de desejos, de medos, que só queria ser vista e amada de verdade.
    Mas nem sempre quem chega pra aquecer, fica.
    Às vezes, só passa pra provar que ainda podemos sentir.
    Agora, aqui estou eu, recolhendo os estilhaços do que fui e tentando lembrar:

    Quem era eu antes de tudo isso?
    Quem fui por trás do escudo, antes da dor, antes dele?
    Talvez seja hora de voltar a ser Elsa, não a que se esconde, mas a que canta no alto da montanha que ninguém mais vai escalar por ela.
    Porque o passado… a neve já cobriu.

    E mesmo que ainda doa, eu sigo.
    Com as marcas, com os aprendizados, com a coragem de sentir.
    E, dessa vez, de não me congelar por ninguém.

  • O Vazio do Talvez

    Nunca foi sobre um lugar.
    Não era a cidade, aquele mar que tinha cor ou o sofá onde ele dormia tantas vezes.
    Era sobre a presença.
    A presença real, viva, inteira, aquela que sustenta, que acolhe, que diz “eu tô aqui” sem precisar falar.

    Mas ele nunca esteve.
    Falava de “família” como quem oferece abrigo, mas sempre com o olhar de quem já está de partida.
    Falava de “tempo”, mas era um tempo que escorria pelos dedos, sempre jogado para depois, para quando der, para o talvez.
    E eu, tola que sou, me agarrei ao talvez como quem se agarra a uma boia em mar aberto, achando que isso era o bastante para não afundar.

    Na sombra desse “talvez”, eu fui apagando.
    Apagando a alegria de chegar, apagando os sorrisos espontâneos, apagando a esperança que um dia ele me olhasse e enfim me enxergasse.
    Fui me perdendo em cada espera, em cada tentativa de ser o que ele precisava, sem perceber que o que eu precisava mesmo era ser vista, ouvida, escolhida.

    Até que um dia ele olhou e não viu mais nada.
    E me deixou ali.
    Sozinha.
    No vazio.
    No vazio de um espaço onde a palavra “família” nunca teve chão,
    No silêncio de um “depois” que nunca chegou,
    Na dor de um “nós” que só existiu dentro de mim.

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