• A Torre e o Rei

    Ela chegou antes do horário, como sempre.
    Com o coração acelerado e um pequeno embrulho nas mãos: uma carta e uma peça de xadrez.
    A torre.
    A que protege, a que segura, a que resiste até o fim.

    Era ele quem a chamava assim, a torre.
    Sempre ali, firme, de pé, mesmo quando tudo ao redor ruía.

    Ela o viu entrar como quem carrega o mundo nos ombros.
    Ele a cumprimentou como quem não sabe mais o que fazer com os próprios sentimentos.
    Ela entregou a carta. Ele leu.
    Ficou em silêncio.

    E então, vieram os abraços.
    Um, dois, três…
    Muitos.

    Eram apertados, longos, intensos.
    Mas não diziam nada.
    Ou diziam tudo?

    Num dos abraços,
    A barba dele tocou sua pele como um relâmpago.
    Ela sentiu o corpo inteiro responder, mas não podia.
    Não devia.

    Ele dizia que a queria por perto.
    Como família.
    Mas os braços dele contradiziam cada palavra.

    “Família não arde assim”, ela pensou.
    “Família não arrepia desse jeito.”

    Ela queria acreditar que era só carinho, que era só afeto confuso.
    Mas sabia que havia algo de manipulação ali.
    Talvez ele só quisesse mantê-la por perto até ir embora de vez.
    Talvez não soubesse lidar com o amor dela.
    Ou talvez só gostasse da ideia de alguém o amando incondicionalmente, sem precisar retribuir.

    Mas ela não nasceu pra ser resto.
    Nem escada, nem sombra.
    Ela nasceu pra ser o centro de um amor inteiro.

    Naquela noite, ela chorou de novo.
    Deitada, olhando pro teto, tentando entender como um abraço podia doer tanto.
    E no fundo, ela sabia que já tinha perdido, há muito tempo.

    A torre caiu.
    Mas mesmo no chão, ainda amava o rei.

  • Carta de um amor que está morrendo

    Eu pedi, com o pouco de fôlego que me restava, que você não destruísse a admiração que eu sentia por você.
    Era só isso que eu queria: guardar uma lembrança bonita do meu menino.
    Aquele menino que me fazia sorrir só por estar perto.
    Aquele que, mesmo no meio do caos, ainda me fazia sentir algo bom.
    Mas você não soube cuidar nem disso.

    Você não destruiu só o que havia entre nós, você está apagando até o que me fazia te olhar com carinho.
    A cada gesto frio, a cada silêncio calculado, a cada olhar vazio, você está matando o pouco que ainda restava aqui dentro.
    Está matando meu amor.
    Está me matando, aos poucos, por dentro.

    E o mais cruel disso tudo é que você sabe.
    Você sabe o poder que tem.
    Sabe que minha voz treme quando falo de você.
    Sabe que meu coração ainda quer correr quando escuta o seu nome.
    E mesmo assim, segue esmagando tudo como se não fosse nada.

    Talvez você ache que é força.
    Mas não é.
    É crueldade.

    Tudo o que eu queria agora era te guardar em algum lugar bonito dentro de mim.
    Guardar a imagem do menino que eu admirei, que eu desejei, que eu amei com tudo que tive.
    Mas você tá me obrigando a esquecer até isso.

    Se era isso que você queria…
    Parabéns.

    Você conseguiu.
    Tá matando tudo.

  • Muito Mais que Amigos, Muito Menos que Amor

    Existe um lugar estranho entre o afeto e o abandono.
    É uma terra sem nome, sem mapa, sem promessa.
    É onde a gente se encontra quando o coração quer, mas o outro não pode, ou não quer, ficar.

    A gente se olha como quem quer dizer tudo, mas não diz nada.
    Se toca com o cuidado de quem sabe que não pode se entregar por completo.
    A gente se fala com ternura, mas nunca com certeza.
    É como se o amor batesse na porta, mas ninguém tivesse coragem de abrir.

    Com ele, eu vivi pequenos instantes que pareciam eternidades.
    Olhares demorados, abraços que paravam o mundo, silêncios que gritavam mais do que mil palavras.
    Momentos que me faziam esquecer que, no fundo, não éramos nada além de dois corpos em trânsito, duas histórias cruzando um ao outro por um breve segundo de ilusão.

    Não éramos amigos, nunca fomos.
    Não havia aquela leveza de quem apenas compartilha a vida sem esperar algo além.
    Mas também nunca fomos amor.
    Não havia o compromisso, a presença, o cuidado cotidiano que sustenta e fortalece.

    Ficamos nesse meio-termo maldito.
    Nesse “quase” que arranha a pele e despedaça o peito.
    Nesse lugar onde se espera tudo de alguém que não pode (ou não quer) dar nada.

    Somos muito mais do que amigos, disso eu sei.
    Mas também somos muito menos do que amor.
    E, talvez, o pior lugar pra se estar…
    é exatamente esse meio.

    Onde a gente ama calado e sofre em silêncio.
    Onde se constrói tudo, mas se vive nada.
    Onde o coração se apega, mas o outro já partiu faz tempo.

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