• Carta para você, que nunca soube…

    Você não sabe.
    E talvez nunca vá saber…
    O que eu senti naquele dia, no exato momento em que me apaixonei por você.

    E não, não foi no seu beijo.
    Foi muito antes disso.

    Foi quando você chegou perto,
    quando pediu pra sentar ao meu lado,
    quando me olhou com aquele olhar tranquilo.
    Naquele instante, o mundo pareceu parar ao redor.

    Eu não conseguia ver mais nada além de você.
    A forma como você respirava,
    a forma como seus olhos buscavam os meus,
    seu jeito de menino, meio tímido, meio seguro…
    Tudo em você falava diretamente ao meu coração.

    Ali, tão perto, quase colados,
    minha respiração falhou.
    O coração disparou tanto que me faltaram palavras.
    Eu mal conseguia responder, só conseguia te olhar.

    Naquele instante silencioso,
    quando nem você nem eu sabíamos o que viria depois,
    meu coração já sabia.
    Foi ali que ele se entregou.

    Foi ali que eu me apaixonei por você.

    E mesmo que você nunca saiba,
    mesmo que esse momento tenha passado despercebido por você,
    pra mim ele mudou tudo.

    Com carinho,
    de quem te viu com o coração.

  • O mundo dos amores não vividos

    Existe um mundo onde vivem os amores não vividos, as histórias não contadas, as peças não escritas.
    Eles moram nos olhos que miram de longe, nos abraços que não foram dados, nas bocas que não mais se encontraram no meio de um riso tímido ou de um impulso inevitável.

    É lá que mora o amor dela.

    Ela não sabe exatamente quando se deu conta disso, mas em algum ponto da caminhada percebeu que tinha sempre ficado de fora do espetáculo.
    Nunca foi o par romântico da história, nunca o nome gritado no meio da multidão.
    Estava sempre nos bastidores, ajudando, torcendo, iluminando a cena para que outros brilhassem.

    Ela se casou.
    Construiu uma vida ao lado de alguém que talvez tenha aprendido a amar, mas onde a paixão nunca habitou de verdade.
    Beijos? Raros. Olhares que devoravam? Nunca.
    Era companhia, rotina, parceria, mas o fogo, aquele que queima o peito e faz o corpo inteiro vibrar de presença, esse parecia existir só nos filmes ou nas histórias alheias.

    E mesmo assim, ela seguia amando amar.

    Talvez por isso se encantou por um certo sorriso, por um olhar que parecia ver algo nela que ninguém mais via.
    Mas foi só por instantes.
    Mais uma vez, era a conveniência, a escuta, a companhia, nunca o centro do desejo.
    O palco não era dela. Nunca foi.

    E então ela chorou.
    Não por ele, mas por tudo que não viveu.
    Por cada beijo que não aconteceu, por cada noite em que se deitou desejando ser vista, tocada, sentida.
    Pela menina que ainda mora dentro dela e que só queria, por uma vez que fosse, ser escolhida.

    Alguns chamariam de carência.
    Mas não é.
    É ausência de um amor que seja inteiro, que não peça licença pra existir.
    É fome de ser amada com pressa, com entrega, com verdade.
    É saudade de algo que ela nunca teve, mas que sabe, lá no fundo, que existe.

    Ela continua.
    Com o coração em retalhos, sim, mas ainda inteiro em sua coragem.

    Talvez um dia o palco seja seu.

    E nesse dia, ela vai descobrir que toda essa espera, toda essa dor,
    nunca foi por não ser o bastante
    mas por merecer mais do que qualquer um foi capaz de dar até agora.

  • O silêncio que me resta

    A mim restou apenas o silêncio.
    O eco mudo da tua ausência, a falta da tua voz que, quando chegava, mesmo sem dizer nada de importante, tinha o dom de acalmar a tempestade que habita meu peito.

    Agora não há mensagens. Não há ligações.
    Só o vácuo. Só o escuro.
    O mundo inteiro parece ter parado naquele instante em que você escolheu não mais olhar pra mim.

    E eu aqui, ainda tentando decifrar os sinais nos teus olhos, aqueles olhos que já me disseram mais do que teus lábios jamais ousaram pronunciar.
    Havia amor ali?
    Desejo?
    Ou era só reflexo do que transbordava de mim?

    Você se calou. E o teu silêncio me grita.
    Grita tão alto que ensurdece minha esperança.
    Quebram-se as lembranças como vidro no chão.

    E eu, ajoelhada entre os cacos, tento entender onde foi que me perdi de você
    Ou de mim.

    A mim restou o silêncio.
    E dentro dele, uma pergunta que não cessa:
    Será que algum dia fui algo pra você, ou fui só eco do que criei sozinha?

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