• Amanhecer de Espera

    O dia amanheceu em silêncio.
    Nenhum bom dia, só o eco da preocupação que habita em mim toda vez que ele desaparece.
    Talvez esteja apagado no sofá de novo, como tantas outras vezes.
    Ele disse que ia beber só um pouco, mas o pouco dele costuma ser mais do que deveria.

    E eu me preocupo.
    Com ele, com o que isso faz com o corpo, com a mente, com a vida.
    Me preocupo porque sei que existe uma cama esperando ele e que nunca é ocupada,
    e o sofá já parece mais abrigo do que lugar de descanso.

    Ah, se eu pudesse estar lá.
    Se eu pudesse levar uma coberta, um café quente, um carinho no cabelo e dizer:
    “Vai ficar tudo bem, dorme na cama hoje. Dorme comigo, só por um instante de paz.”
    Mas não posso.

    Mesmo assim, hoje não estou triste.
    Porque ontem ele me ligou.
    O meu menino.
    Do outro lado da linha, só porque quis jogar conversa fora comigo, só porque quis dividir o dia.
    E isso, pra mim, foi tudo.

    Momentos de céu depois de dias de tempestade.

    Agora, espero que ele acorde bem.
    Que não esteja com dor de cabeça, que coma alguma coisa, que respire fundo e se levante.
    Porque amanhã é dia de vê-lo.
    E eu quero ele inteiro, inteiro pra ele, inteiro pro mundo.
    Mas, egoísta que sou, quero ele inteiro pra mim também.
    Pro meu abraço,
    pro meu olhar que o procura mesmo em silêncio,
    pra essa vontade de dizer tudo sem dizer nada.

  • Desabafo

    Hoje eu me dei conta… ele não é mais o mesmo.

    Não é mais o menino dos olhos brilhantes, do sorriso que me fazia esquecer do mundo, das palavras doces no meio da tempestade. Hoje ele é silêncio, frieza, distância. Hoje ele é o oposto de tudo o que eu enxerguei ou de tudo o que eu quis acreditar.

    Dói. Dói ver ele passar por mim como se eu fosse só mais uma. Dói lembrar do calor que havia entre a gente e encontrar agora um vazio cortante, uma indiferença que congela até o que sobrou do meu peito.

    E eu tento, juro que tento ser forte, disfarçar, agir normalmente, mas por dentro tá tudo despedaçado. Porque não é fácil fingir que não se importa quando tudo em mim ainda grita por ele. Quando a vontade é só de pegar na mão dele e dizer: olha pra mim, por favor, me enxerga de novo. Mas ele não enxerga. Ele virou pedra.

    E o mais cruel de tudo isso é que, mesmo sabendo que ele mudou, que ele se afastou, que me olha com uma frieza que machuca… eu ainda sinto. Ainda me importo. Ainda me perco nos detalhes. Ainda sonho com o abraço, com o toque, com o beijo que já foi meu, mesmo que só por mais um instante.

    Hoje, o que restou em mim foi o silêncio depois da guerra. A lágrima que escorre em silêncio escondida no banheiro. A vontade de sumir só pra ver se a dor desaparece junto.

    Ele diz que é “vida que segue”. Mas não sabe que tem uma vida aqui tentando seguir, mas tropeçando em cada lembrança, em cada promessa que nunca foi dita, mas que meu coração acreditou.

    Só queria que ele soubesse o quanto isso machuca.
    E que talvez… um dia, quando ele olhar pra trás, perceba o quanto perdeu.

  • Uma peça que ninguém viu inteira

    Hoje eu só sinto o peso de ser menos. De ser quase. De ser nunca o suficiente.
    Hoje eu me olho no espelho e vejo o rastro do que sobrou depois de tanto dar, tanto amar, tanto esperar.

    Cansei de ser a peça que só serve quando falta alguém.
    Cansei de ser uma presença confortável, mas invisível.
    A que escuta, a que cuida, a que corre atrás.
    A que segura o mundo dos outros enquanto o próprio desaba em silêncio.

    Hoje eu me pergunto:
    Em que momento deixei que me tratassem como descartável?
    Em que parte do caminho aceitei migalhas achando que era banquete?

    Eu fui amor onde só pediram companhia.
    Fui presença onde só queriam silêncio.
    Fui abraço onde só havia distância.

    E mesmo assim, cá estou eu. Tentando entender por que dói tanto.
    Tentando sufocar o choro só pra não parecer fraca.
    Tentando não mandar mais uma mensagem, não implorar mais uma vez pra ser vista.

    Mas a verdade é que, por dentro, estou gritando.
    Porque eu queria ser escolhida.
    Porque eu merecia ser escolhida.
    Porque o que eu dei foi de verdade.
    E mesmo assim, fui só uma peça no tabuleiro. Uma que caiu. Uma que ninguém sentiu falta.

    Hoje eu entendo:
    Não é que eu seja pouco.
    É que tem gente que nunca soube lidar com tanto.

    E por mais que doa…
    É hora de juntar os cacos,
    e, mesmo ferida, começar a me refazer.

Categorias


Pesquisar