• Contando os Dias pra Ver Você

    Tem gente que espera pelo fim de semana, pela sexta-feira, por uma viagem marcada, por um feriado prolongado. Eu espero por você. Espero pelo dia de te ver como quem conta as horas pra algo que aquece, que bagunça, que dói e alivia ao mesmo tempo.

    Tem sido assim. Os dias vão passando, lentos e arrastados, como se o tempo soubesse que eu só funciono direito quando você está por perto. No meio do caos do cotidiano, da bagunça de sentimentos, da vida que segue torta, tem esse ponto de luz chamado “dia de ver você”. E é por ele que eu caminho, mesmo mancando, mesmo cansada.

    Você nem imagina o quanto a sua presença, mesmo que não seja como eu queria, ainda tem o poder de reanimar minha alma. Como um gole d’água depois de muito tempo no deserto. Como um abraço que não aconteceu, mas que eu sinto mesmo assim toda vez que você se aproxima, me olha, me fala com aquela voz que eu reconheceria entre mil.

    E não é que a vida parou por sua causa, não. Ela continua, exigindo minha força, minha rotina, meus compromissos. Mas tudo tem uma cor meio desbotada quando você não está. E aí, quando o dia marcado se aproxima, meu coração se apressa, minha mente se enche de cenários imaginados, e eu me pego sorrindo sozinha só de pensar na possibilidade de estar do seu lado de novo.

    É que tem amor que acontece no silêncio. Tem paixão que mora na entrelinha. Tem saudade que aperta sem que a gente nunca tenha tido o suficiente pra chamar de nosso.

    E enquanto eu não sei o que você sente, enquanto eu finjo naturalidade pra não te assustar, enquanto você se faz de desentendido ou talvez só tenha mesmo medo… eu sigo aqui, fazendo do meu peito um lar provisório pra essa ausência. E contando os dias, sempre contando os dias, pra te ver de novo.

  • Barco ao Lado

    Talvez seja hora de desistir.

    Não por fraqueza.
    Mas por exaustão.
    Porque não estamos no mesmo barco, eu só insisti em remar do lado, acreditando que minha presença, mesmo de longe, já era amor suficiente pra nos manter juntos.

    Você segue firme, no seu caminho, na sua velocidade, sem olhar pra trás.
    E eu aqui, no barco do lado, que ninguém viu que estava furado.

    Furou de tanto esperar.
    Furou de tanta ausência, de tantos silêncios, de tantos “talvez”.
    Furou com o peso dos meus próprios sentimentos mal correspondidos, das fantasias que criei com base em meia dúzia de gestos que talvez nunca significaram o que eu desejei.

    Com um balde pequeno e às vezes só com as mãos, tento tirar a água pra fora, tentando manter o barco flutuando, tentando não ficar pra trás, tentando não naufragar sozinha.

    Mas estou me afogando.
    E não há braços seus estendidos pra me puxar.
    Não há voz que diga: “vem, sobe aqui comigo.”

    Só há o som do seu barco indo embora, sem perceber ou pior, percebendo, mas não se importando.

    E eu… eu estou cansada.
    Cansada de lutar sozinha por uma travessia que só eu sonhei em fazer a dois.

    Talvez seja hora de largar o baldinho, parar de tentar.
    De deixar o barco afundar e me resgatar da dor de insistir em quem não me escolhe.

    Porque no fim das contas, não é amor quando só um rema.

  • Peça de roupa

    Lá está ele.
    Dobrado com cuidado, como se cada dobra guardasse um pouco do que não se diz.
    Lá está ele, limpo por fora, mas ainda impregnado do cheiro dele, maldito cheiro que me confunde, me invade, me acalma e me destrói.

    Carrego ele como quem carrega uma esperança.
    Como se fosse possível, por um segundo, enganar a ausência.
    Como se, ao devolvê-lo, ele também devolvesse um olhar mais longo, um gesto menos contido, um abraço que, enfim, me fizesse parar de tremer por dentro.

    Eu sei que ele nem percebe o quanto esse pedaço de pano me dilacera.
    Mas é ali, na costura do ombro, no vinco da manga, que repousa tudo o que eu ainda queria dizer.
    Eu cuidei dele. Eu lavei com carinho.
    Eu costurei os botões com delicadeza.
    Eu amarrei um pedaço do meu coração na linha da barra.

    Hoje, quando eu o entregar, ninguém vai ver.
    Mas vai ser como devolver um pedaço de mim.
    E ele nunca vai saber disso.

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