• Barco ao Lado

    Talvez seja hora de desistir.

    Não por fraqueza.
    Mas por exaustão.
    Porque não estamos no mesmo barco, eu só insisti em remar do lado, acreditando que minha presença, mesmo de longe, já era amor suficiente pra nos manter juntos.

    Você segue firme, no seu caminho, na sua velocidade, sem olhar pra trás.
    E eu aqui, no barco do lado, que ninguém viu que estava furado.

    Furou de tanto esperar.
    Furou de tanta ausência, de tantos silêncios, de tantos “talvez”.
    Furou com o peso dos meus próprios sentimentos mal correspondidos, das fantasias que criei com base em meia dúzia de gestos que talvez nunca significaram o que eu desejei.

    Com um balde pequeno e às vezes só com as mãos, tento tirar a água pra fora, tentando manter o barco flutuando, tentando não ficar pra trás, tentando não naufragar sozinha.

    Mas estou me afogando.
    E não há braços seus estendidos pra me puxar.
    Não há voz que diga: “vem, sobe aqui comigo.”

    Só há o som do seu barco indo embora, sem perceber ou pior, percebendo, mas não se importando.

    E eu… eu estou cansada.
    Cansada de lutar sozinha por uma travessia que só eu sonhei em fazer a dois.

    Talvez seja hora de largar o baldinho, parar de tentar.
    De deixar o barco afundar e me resgatar da dor de insistir em quem não me escolhe.

    Porque no fim das contas, não é amor quando só um rema.

  • Peça de roupa

    Lá está ele.
    Dobrado com cuidado, como se cada dobra guardasse um pouco do que não se diz.
    Lá está ele, limpo por fora, mas ainda impregnado do cheiro dele, maldito cheiro que me confunde, me invade, me acalma e me destrói.

    Carrego ele como quem carrega uma esperança.
    Como se fosse possível, por um segundo, enganar a ausência.
    Como se, ao devolvê-lo, ele também devolvesse um olhar mais longo, um gesto menos contido, um abraço que, enfim, me fizesse parar de tremer por dentro.

    Eu sei que ele nem percebe o quanto esse pedaço de pano me dilacera.
    Mas é ali, na costura do ombro, no vinco da manga, que repousa tudo o que eu ainda queria dizer.
    Eu cuidei dele. Eu lavei com carinho.
    Eu costurei os botões com delicadeza.
    Eu amarrei um pedaço do meu coração na linha da barra.

    Hoje, quando eu o entregar, ninguém vai ver.
    Mas vai ser como devolver um pedaço de mim.
    E ele nunca vai saber disso.

  • Invisível

    Minha mente está surtando.

    Ah como eu queria te odiar, seria tão mais fácil.

    Só que quando eu olho você ali, quieto, sentado, meu corpo grita, meu peito pula e esse terrível calor inquietante me alucina.

    Vontade é pular em você, te dar um sacode e dizer: olha eu aqui, você não tá me vendo? Me pega pra você!

    Eu sei que você também quer, então pra que ficar fugindo disso, me tome logo e faça de mim o que você tanto deseja.

    Se entrega de uma vez porque eu ainda tô aqui, enquanto eu ainda tô aqui!

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