• Se você soubesse…

    Se você soubesse o quanto eu desejei estar ali, naquela sala, naquele sofá, naquele instante onde tudo poderia parar.
    Se você soubesse a força que fiz pra não te ligar, pra não aparecer, pra não implorar por mais um abraço, por mais um beijo, por mais um momento que talvez nunca tivesse real valor pra você, mas que pra mim significaria tudo.

    Você disse vida que segue…
    E sim, a vida segue.
    Mas não me esperou.
    Porque eu fiquei aqui, parada, te olhando partir todos os dias. Mesmo quando você ficava, você ia. Mesmo ao meu lado, você já estava longe.
    E eu tentando te seguir com esse barquinho furado, usando as mãos pra tirar a água, sangrando os dedos pra não afundar, só pra estar perto.

    Eu me perdi tentando te alcançar.
    Me perdi nas noites em que nos ligavamos e você bêbado, e eu atendia como quem atende a esperança.
    Me perdi nos sorrisos que você me dava, e que pareciam promessas.
    Me perdi nos abraços que eu sonhava, nos toques que vinham e iam, nas palavras bonitas que nunca viraram realidade.
    Me perdi naquele pedaço de pano, no cheiro que não era meu, mas que eu queria chamar de casa.

    E agora eu estou aqui.
    Com o coração estilhaçado e o amor inteiro.
    Com as mãos vazias e a alma exausta.

    Se você soubesse…
    Que tudo que eu queria era ser aquela que você escolhe.
    Não por carência.
    Não por impulso.
    Mas porque, no fundo, eu só queria ser seu lar.
    E você parecia casa.

  • Você tá aí… E eu aqui.

    A essa hora, talvez esteja com ela. Talvez sorrindo, distraído, talvez nem lembrando que eu existo.
    Enquanto isso, eu tô aqui, sozinha com esse turbilhão de pensamentos e sentimentos que não consigo conter.
    A saudade é quase física, uma dor que morde o peito devagar e depois aperta com força.

    A boca que um dia foi minha em um instante breve de verdade…
    O abraço que me aquieta só em pensamento…
    O toque que eu ainda sinto mesmo sem estar.

    Você talvez nem saiba, mas eu ainda tô aqui.
    Te esperando nos meus pensamentos, desejando que você se vire e me veja.
    Não como uma sombra ou lembrança distante, mas como eu realmente sou, inteira, entregue, sua.

    Larga tudo e me enxerga.
    Vê que eu tô aqui.
    Que mesmo em silêncio, mesmo me calando, mesmo fingindo que consigo seguir em frente como você, eu ainda tô aqui.

    Implorando em silêncio por aquele olhar que me atravessava.
    Por um gesto, um respiro, qualquer coisa que diga que em algum lugar dentro de você, eu ainda existo.
    Só me vê.

  • Dividida

    Existe um lugar no tempo em que a gente se vê parada na encruzilhada entre o que é certo e o que arde. Entre o que deve ser feito e o que se deseja com todo o coração. E é ali, bem nesse ponto suspenso entre dois mundos, que eu estou agora.

    De um lado, a estabilidade, o chão firme, os passos medidos. O que não machuca. O que não arranca a alma. O que me mantém em pé, mesmo que sem brilho nos olhos.

    Do outro, um furacão. Um olhar que me atravessa como flecha. Uma voz que acalma meu caos mesmo quando é a origem dele. Um sentimento que queima e me devora, mas que me faz sentir viva. E eu queria tanto… só mais um segundo desse fogo, desse toque que não aconteceu, desse beijo que eu imaginei mil vezes.

    A consciência me segura pela mão, tenta me puxar de volta, dizer que já basta, que o amor-próprio precisa ter a última palavra. Mas o coração é teimoso. Ele se arrasta, se ajoelha, se entrega, mesmo sabendo que talvez nunca receba nada em troca.

    É uma luta diária entre silenciar os sentimentos e sufocar quem eu sou. Porque quem eu sou… sente demais. Ama demais. Espera demais.

    E nessa espera, vou aprendendo a viver em metades. Um pouco aqui, outro pouco lá. Um sorriso fingido durante o dia, um choro escondido na madrugada. Um “tá tudo bem” dito com um nó na garganta. Porque o que eu queria mesmo era poder gritar:

    “Me escolhe.”

    Mas não grito. Porque sei que, talvez, ele nunca escute. Ou pior: escute e continue indo embora.

    Hoje, sou só essa versão de mim mesma: dividida, mas tentando costurar pedaços, como quem reconstrói uma colcha de retalhos com os cacos de uma história que quase foi. Quase.

    E no fim, sigo aqui… tentando encontrar um jeito de existir entre o que é certo e o que me consome por dentro.

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